Carlinhos e Carlão
* Por
Isabel Furini
Aniversário de Alberto.
Meu irmão, o Carlão, virá com alguma de suas loucuras. Já o presenteou com um
vômito de plástico, com cocô... nem sei de que material, parecia de verdade.
Deu copo com mosca, refrigerante que faz babar... O Alberto queria matá-lo, até
que...
– A sociedade está
perdendo os valores éticos. A sociedade de consumo, consumiu nossos valores! –
gritou Alberto para finalizar o discurso. Os alunos aplaudiram. O diretor não
gostou. Os pais deram queixa: o professor Alberto usava da retórica para
colocar os filhos contra o sistema. Foi demitido.
Alberto era o único dos
três irmãos que estudara. Meu sogro, ao morrer, deixou uma chácara para o mais
velho, uma padaria para o filho do meio e, para o caçula, uma poupança para
terminar os estudos. Alberto formou-se em História.
Nessa tarde quente de
primavera, Alberto aproximou-se do prédio, cabisbaixo. Eu falava no hall de
entrada com dona Rosa, a velhinha do 504. Elevador em manutenção. Nesse
momento, a Ramona, enorme como uma montanha, com aquela obesidade mórbida que é
impossível ocultar – 175 quilos, descia as escadas. Roupa clara, florida,
esvoaçante, parecia uma barraca. .
– Meninas – grita desde
a escada – voltei a nadar e estou adorando...
Parabenizamo-la pela
iniciativa. Ramona caminha até o carro – o estacionamento fica na frente do
prédio – entra atabalhoadamente e se afasta. Carlinhos, meu filho, parece
entretido com seu aviãozinho de brinquedo.
– Você não vai
acreditar, mas ela nada bem... – comentei.
– Estranho, verdade..
– Estranho, nada –
disse Carlinhos parando a brincadeira – Estranho, nada, baleias nadam bem...
todo mundo sabe. Olhou com os olhos arregalados pela surpresa. Dona Rosa, a
senhora não sabia que as baleias nadam bem?
Dona Rosa soltou uma
gargalhada. Nesse momento entrou o Alberto. Lúcia, preciso falar com você,
disse com voz triste. Perdi o emprego, murmurou.
– Vamos comer bolo,
Carlinhos?... Podemos subir devagar – disse dona Rosa para amenizar a situação.
A notícia se espalhou.
A família toda entrou em desespero. Os tios de Alberto, meus pais, os irmãos de
Alberto, minhas primas. Todos estavam revoltados. Falavam em processar a
escola, em processar o diretor, os pais dos alunos, até em processar o porteiro
da escola. Só o Carlão permanecia tranqüilo.
Ainda lembro quando
falamos sobre o assunto. Foi numa tarde. O Carlão ia cuidar do Carlinhos porque
eu precisava consultar o médico e Alberto tinha uma entrevista de emprego.
Estava do lado de fora, esperando-o . O Carlinhos brincando com um carrinho
entre as poltronas do hall. Duas senhoras idosas, idosas mesmo, falavam sobre
doenças, ao lado da porta. Uma apoiou-se do lado direito, e a outra, do lado
esquerdo da porta. Desculpa o atraso, mana, disse o Carlão e entrou correndo,
passando entre elas sem cumprimentar. Uma das senhoras olhou para ele e gritou:
– Juventude sem
educação, passou entre nós duas e nem disse boa tarde.
Carlão virou-se e
irônico retrucou: – Desculpem, achei que as duas múmias faziam parte da
decoração do prédio. Eu baixei a cabeça e caminhei até o carro. O Carlão e
Carlinhos sempre me faziam ficar envergonhada.
– O que disse o médico?
– perguntou o Carlão.
– Só estresse... – respondi
quase chorando... É que se Alberto não consegue emprego... não sei... devemos
R$15.000,00 ao banco.... vamos perder o apartamento... Carlão.... onde vamos
morar?
– Podem morar comigo...
– Você mora numa
quitinete...
– É verdade... não se
preocupe, já vai surgir alguma solução.
Eu continuei
preocupando-me. Às vezes, o Carlinhos, com seus cinco anos, aproximava-se de
mim – Por que está tão triste, mãe? Eu não respondia... não sabia o que dizer.
Uma semana depois, à
noite, o Carlão chegou acompanhado da Marilda, a namoradinha loira.
Entregou-nos R$ 15.000,00 em notas de cinqüenta... Foi a maior agitação, lá em
casa. O Carlinhos pulava do sofá, subia e pulava novamente. Alberto achava que
o Carlão tinha roubado. Minha mãe gritava que o filho não era ladrão. Eu
perguntava de onde ele havia tirado o dinheiro.
– Ele não roubou,
não... ele é um gênio! -exclamou a Marilda e deu-lhe um beijão na boca...
desses de tirar o fôlego.
No dia anterior, o
Carlão tinha solicitado falar com Osvaldo, o chefe. Osvaldo era um quarentão
arrogante e egocêntrico. Metido a besta, segundo os funcionários. Era
namoradeiro, um play-boy e bom gourmet. Foi recebido pelo Osvaldo às dezesseis
horas. Sala grande, luminosa, computador de última geração.
– Admiro o senhor e por
isso, tenho que falar. Bom, não sei se devo contar isso ao senhor, talvez...
é... melhor outro dia.... Virou-se e deu dois passos até a porta.
– Pode falar, rapaz! O
Carlão explicou que o assunto era muito delicado. Não sei se devo, não sei se
devo, repetia.
– Por favor, sente-se.
Qual é o problema?
– Seu Osvaldo, eu sei
que temos nossas opiniões, algumas diferenças... mas eu admiro muito o senhor,
por isso acho que devo ser honesto. O pessoal está dizendo... está dizendo...
que o senhor...
– Sim?
– Pinto pequeno. Estão
dizendo que o senhor tem pinto pequeno.... Desculpe, senhor, mas é o que estão
dizendo.
Os olhos de Osvaldo
ficaram enormes, injetados de sangue. Ele, o play-boy, o garanhão.... Pinto
pequeno, eu????
– Estou contando para
ajudar. Em seu lugar eu... daria uma lição. Reuniria todos os homens, baixaria
as calças e faria notar o tamanho de minha genitália.
Osvaldo ficou em
silêncio, os punhos crispados, a garganta seca. Serviu-se de um café e ofereceu
outro para Carlão.
– Isso! Isso! Vou dar uma
lição no pessoal.
Osvaldo chamou a
secretária e pediu para reunir todos os homens da empresa – 185, na parte livre
do almoxarifado. Ele iria discursar.
Osvaldo, de pé sobre um
palco improvisado, esbravejou:
– Sei que estão falando
nas minhas costas... sei que estão me criticando, mentindo sobre o meu pinto.
Dizendo.. dizendo que tenho pinto pequeno.
Carlão, na primeira
fileira gritou: – Abaixe as calças! Abaixe as calças!
Osvaldo abaixou as
calças e mostrou, com orgulho, como era um homem avantajado. De hoje em diante,
quero ser chamado de Osvaldo, grande pinto! Gritou e retirou-se, feliz. Os
funcionários iam saindo e cumprimentando o Carlão. Você ganhou... cara! Nunca
pensei que realmente conseguisse fazer o chefe abaixar as calças diante dos
funcionários.
Marilda contou rindo
que o Carlão tinha feito uma aposta. Apostou que conseguiria fazer o chefe
descer as calças. E conseguiu. Todos os 327 funcionários da empresa, entre
homens e mulheres, todos apostaram. R$ 50,00 cada um. São R$ 15.000,00 para pagar
o apartamento e um troquinho para mim... disse o Carlão.
O dono, seu Eufrásio,
ao saber da brincadeira chamou o Carlão. Criatividade é o que precisamos nesta
empresa, disse. O Carlão mudou de setor. Foi para o departamento de marketing e
ganhou uma promoção.
– O que fará hoje teu
irmão?- perguntou a prima de Lúcia, enquanto arrumava os brigadeiros.
– Alguma brincadeira...
como sempre, agora é chefe da empresa, mas não mudou.
Soou a campainha. Os
convidados estavam chegando com presentes para Alberto. Beijos, abraços, frases
como: o Carlinhos é um amor, é muito fofinho... Onde está o aniversariante?
Carlão trouxe um
presente para Alberto. É para festejar seu novo emprego na faculdade, falou. Um
charuto fino, um cubano. Alberto acendeu. Explosão. Risos. Alberto foi lavar o
rosto. Tinha ficado preto. Lúcia aproximou-se dele. Você não sabia que ele ia fazer
isso? Sabia, Lúcia, eu sabia, mas depois de tudo o que fez por nós... decidi
entrar na brincadeira.
* Isabel Furini é
escritora e poeta premiada, autora de “Eu quero ser escritor – a crônica”, do
Instituto Memória, Curitiba.
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