A negra Saúna
* Por
Clóvis Campêlo
A negra Saúna era
agregada na casa do capitão Batista. Suja e maltrapilha, tinha os pés rachados
e os cabelos desgrenhados como um Macunaíma de subúrbio. Fazia o trabalho menos
nobre daquela residência, como alimentar e banhar os cachorros, lavar os
banheiros e cuidar dos chiqueiros dos porcos que havia no fundo do quintal.
Aliás, era tratada pela família quase como se fosse um deles: dormia no chão,
em um cantinho da cozinha, aos pés do fogão. Era a última a dormir e a primeira
a levantar quando o sol raiava.
Um dia, antes do sol
nascer, Saúna reuniu os seus trapinhos e fugiu pela porta da cozinha. Sumiu
para nunca mais ser vista. A humilhação era grande demais, mesmo para ela que
nunca fora ninguém e nunca tivera nada na vida. A matriarca dona da casa,
esposa do capitão Batista, durante dias reclamou da falta de consideração de
Saúna, que ali, naquela casa, sempre fora tratada como uma pessoa da família e
agora a deixava na mão sem nenhum aviso prévio. Ingratidão, isso sim! A
retribuição era sempre essa.
Na verdade, Saúna não
era negra, e sim uma cafuza, uma caboré, filha de um índio bêbado com uma
prostituta negra, trazida ainda menina pela família do capitão Batista da
cidade de Tacaimbó, no agreste pernambucano.
Do mesmo modo, o
capitão Batista não era capitão, e sim um velho cabo, reformado como suboficial
da Força Área Brasileira, um ex-combatente da 2ª Guerra, que fizera patrulhas
noturnas no litoral pernambucano. Mas, aquela patente sempre o orgulhara e
impunha respeito naquele bairro de classe média.
Durante dias, correu na
rua da fábrica de redes o boato de que Saúna teria fugido com o filho mais
velho do verdureiro. Mas, poucas pessoas acreditaram nisso, haja vista a feiura
da negra e a sua sujeira.
Na verdade, o fato
nunca foi devidamente esclarecido e, para as pessoas daquela comunidade, Saúna
terminou mesmo por se transformar no símbolo da ingratidão.
Para mim, tantos anos
depois, a negra teria mesmo era fugido da escravidão disfarçada e consentida
que lhe fora imposta por aquela família. Mais do que Macunaíma, sempre me
lembrara a figura da escrava Bertoleza, personagem do romance O Cortiço, de
Aluizio de Azevedo, que se suicida ao descobrir que fora traída por João Romão,
o homem que amava. Na vida real, a saída de Saúna foi muito mais esperta e
honrosa.
*
Poeta, jornalista e radialista, blogs:
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