A morte de Marcelino
* Por
Herberto Sales
Quando, revolvendo as
gavetas de velhas cômodas, e os baús e as arcas de guardados da minha família,
acumulados com o tempo no depósito do sobrado, comecei a recolher, em Andaraí,
muitos anos depois da morte de tio Marcelino, aquele esparso material evocativo
da sua vida, a ressurgir do desbotado antigo e grave de fotografias, álbuns,
cartas, e dos postais enviados do estrangeiro à minha mãe - considerei, nas
boas lembranças suscitadas por aquelas relíquias de intimidade familiar, o
sombrio contraste daqueles anos de solidão no palacete, culminados num episódio
tão dramático para todos nós. Sim: nunca hei de me esquecer. Estava em aula,
absorvido nos meus apontamentos, quando o Professor Costa Pereira irrompeu na sala,
transtornado, e me pediu que o acompanhasse sem me deixar sequer recolher os
livros e os cadernos:
- Deixe isso aí; depois
você apanha. Vamos!
No corredor, andando
apressado à minha frente, deixou escapar, nervoso, esta breve frase:
- Seu tio sofreu um
acidente.
Quase a correr,
transpôs o portão do colégio, e ganhou a rua, sem chapéu, o paletó a
descair-lhe dos ombros, desabotoado, e rumou para a Avenida Bastos, que ficava
perto. Eu me esforçava por emparelhar-me com ele, ao longo da calçada, sem o conseguir;
no meu aturdimento, estranhava que o bom Costa Pereira, homem de morosidades e
de estudo, perdido nos seus vagares, se agitasse tanto, naquele ímpeto
inusitado. Hoje, compreendo os motivos da sua grande pressa, determinada por
uma aflição de espírito que, naquela época, certamente escapava à minha
percepção de menino. Ao chegarmos ao palacete, havia alguns curiosos
estacionados no passeio; uma ambulância se afastava, branca e veloz. Não era,
como as atuais, provida de sirene. Fazia soar uma estridente campainha, a pedir
passagem, num alarido de urgência e desespero, amortecido aos poucos na
distância, entre o rumor dos bondes, no fim da rua. Ainda com aquele agoniado
toque a vibrar nos ouvidos, atravessamos o jardim; e, ao aproximarmo-nos da
varanda, senti no ar, como a desprender-se das palmeiras, um cheiro abafado de
fumaça. Curioso, lancei os olhos ao recanto onde meu tio habitualmente se
entregava ao trato dos seus adubos, na ideia de encontrá-lo ali. O que vi,
entretanto, foram uns estranhos sinais de desordem - terra espalhada no chão,
vasos quebrados, e em meio àquilo uma peneira chamuscada. Sem dúvida, lavrara
no local um começo de incêndio, de que havia vestígios mais evidentes nuns
sacos de aniagem enegrecidos pelo fogo. Devia ter sido apagado com a mangueira
da rega, a esguichar ainda um fio de água nos ladrilhos, enquanto o velho
Alfredo fechava precipitadamente a torneira. Não me foi difícil então localizar
o cheiro: todo aquele trecho da varanda cheirava a queimado. E, como primeiro
indício de que algo muito mais grave ocorrera no palacete, a cozinheira,
trêmula, a um canto, enxugava com o avental os olhos marejados de lágrimas. Um
indício mais claro surgiria logo depois: fomos encontrar tia Edite na sala,
derreada numa cadeira, chorando, e o Vilela a seu lado, muito pálido, a dar-lhe
a beber num copo um calmante. Ia pela casa uma desolação. Havia como um vazio,
a indicar, naquela atmosfera pesada, de reposteiros e candelabros, a mudança, o
fim de alguma coisa imponderável. Erguendo os braços, na sua aflição, Costa
Pereira correu para Vilela:
- Acabo de ser avisado
do acidente. Mas que houve?
E Vilela, inda com o
copo de remédio na mão:
- Uma desgraça! Uma
desgraça! A ambulância acaba de levar Marcelino para o hospital. Vamos para lá
agora mesmo.
Numa confusão, com tia
Edite chorando inconsolavelmente, saímos todos, sem outro cuidado senão o de
ficarmos perto de meu tio. A guarda do palacete foi entregue ao velho Alfredo,
empregado de inteira confiança. E logo ele se pôs a fechar as portas e as
janelas, num ruído cavo de ferrolhos, que nos acompanhou pelo jardim, até
apanharmos, no portão, um automóvel que passava. Impossível recompor, embora
com auxílio das informações por mim recolhidas muitos anos mais tarde, o que se
passou durante o trajeto. Dele guardo a impressão de um fundo silêncio, a
manter-nos todos presos aos soluços de tia Edite, enquanto o carro rodava em
direção ao Hospital Português, na Barra. Lá já se encontravam, quando chegamos,
João Félix, Pessanha e Lemos, reunidos num pequeno grupo silencioso, em frente
à porta de um quarto. Médicos e enfermeiras, em seus aventais brancos,
transitavam apressadamente no corredor. À aproximação de tia Edite, amparada
por Vilela e Costa Pereira, houve uma certa agitação. Os outros movimentaram-se,
cercando-a de cuidados, e, com a ajuda de uma enfermeira, levaram-na para uma
sala próxima, onde a fizeram sentar-se num sofá. E enquanto a afastavam, na
precipitação daquele ajuntamento, vi, por um instante, abrir-se a porta do
quarto, para dar passagem a um médico. Foi tudo muito rápido. Mas bastou para
que eu recolhesse, perplexo, numa onda inebriante de éter, a visão de um corpo
enfaixado da gaze e ataduras, estendido sobre uma mesa esmaltada de branco. Era
meu tio que ali estava. A porta fechou-se logo. Gravou-se-me nos olhos, porém,
e agora é como se eu a revisse, associada a uma ideia de sofrimento físico, a
cena surpreendida no entremostrar daquele interior asséptico e neutro, fixado
numa sinistra imagem de pensos, ferros e aventais. Reunidos na sala, não sei
por quanto tempo ali permanecemos. Os amigos de meu tio conversavam em voz
baixa: de vez em quando, algum deles ia até o corredor, num passo vagaroso e
leve. Ao voltar, os outros o rodeavam, como a pedir notícias, na ansiedade da
longa expectativa. Havia, não raro, grandes silêncios entre eles, interrompendo
aquele grave cochichar de espera e apreensão. Desdobravam-se nas atenções
dispensadas a tia Edite, principalmente Vilela, que se mantinha a seu lado,
zeloso de ajudá-la a recompor-se de tão forte abalo. Dizia-lhe uma palavra de
conforto, ora tomava-lhe o pulso, ora punha-lhe a mão nas têmporas. Ela
continuava a chorar, o rosto afundado num lenço. Lembro-me de uma enfermeira
aplicando-lhe uma injeção. E, por mais de uma vez, vieram servir-nos café,
tomado em silêncio por todo o grupo, mal se ouvindo então o raspar das xícaras
nos pires. Fiquei a um canto, aturdido com o que se passava, e a espaços ia à
janela, em busca de uma distração. Punha-me a ver, lá fora, as árvores, a rua,
e mais além o farol, numa elevação, recortando contra o céu a grande torre
erguida diante do mar. De repente, surgiu, de avental, Dr. Freire. Médico
particular de meu tio, acompanhara todos os socorros que lhe foram prestados no
hospital, depois do acidente. E tudo se precipitou. Todos correram atarantados
para o quarto, ficando na sala, apenas, eu e tia Edite, e o Dr. Freire, que a
amparava no ombro, a consolá-la, mas chorando tanto quanto ela. Trouxera ele a
pior notícia que se poderia esperar: meu tio acabara de falecer. Transcorridos
uns minutos angustiados, o grupo voltou a reunir-se na sala. E recordo-me que,
na impressão daquela despedida fúnebre, todos sofriam, num pranto silencioso, a
perda do grande amigo. Em meio à confusão reinante, sob os efeitos daquele golpe
que se abatera sobre eles, retive a lembrança de João Félix, de pé, ao lado da
janela, as costas voltadas para a sala, como fitando lá fora um ponto
invisível, a levar de quando em quando o lenço aos olhos. Somente eu, muito
menino ainda para me capacitar do horror daquele transe, somente eu, que nunca
vira morrer ninguém, e nada sabia do significado da morte, somente eu não
chorava. Dir-se-ia que eu apenas estranhasse o fato de uma pessoa poder deixar
de viver. Mas as lágrimas que então me faltaram vêm-me agora, não aos olhos,
mas ao coração, cristalizadas numa dor sincera, ao lembrar como tio Marcelino,
entre as palmeiras que lhe alegraram tanto a vida, foi encontrar tão
tragicamente a morte.
(Dados biográficos do
finado Marcelino, 1965.)
* Escritor, membro da Academia Brasileira de Letras
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