Me banca que eu vou
* Por
José Ribamar Bessa Freire
No carnaval, quem é que lê jornal? Esta pergunta atormenta colunistas em
busca de um tema que possa atrair o leitor, cuja cabeça está em outro lugar, já
que o corpo desfila pelas ruas das principais cidades do Brasil ao som de
cuícas, surdos, reco-recos, pandeiros, tamborins. São milhares de blocos com
nomes sugestivos, prenhes de humor e de sabedoria popular, com duplo
significado, jogos de palavras, recursos fônicos. Uma simples lista deles já
constitui um poema.
"Aí Dentro, Excelência" e "Unidos da Cachorra"
(Fortaleza-CE); "o Baiacu de Alguém" (Floripa-SC); "Alcova
Libertina" (Belo Horizonte - MG); "Cansei de ser profunda" e
"Mamãe, virei bicha" (Olinda-PE); "Nem Freud nem sai de
cima" e "Dê para quem tem fome" (São Paulo). Sem contar o
"Tô cagando e andando" de Niterói e a Banda da Bica, cujo lema é
"Amor de Bica, onde bate, fica" (Manaus-AM).
No Rio de Janeiro, até os postes e as estátuas remexem o esqueleto. O
Cristo Redentor levanta os dedinhos, o Pão de Açúcar rebola e a igreja da Penha
cai na gandaia. São mais de 500 blocos em todos os bairros. No Leblon, o
"Imaginô? Agora Amassa"; em Copacabana o "Fogo na Cueca", o
"Broxadão" e "Galinha do Meio-Dia"; em Ipanema o
tradicional "Que Merda É Essa?", que teve um filhote, o bloco
infantil da Rua Garcia D'Ávila "Que Caquinha É Essa?"; em Botafogo, o
"Pela Saco", na Gávea o "Me Beija que eu Sou Cineasta" e no
Leme "Meu Bem, volto já".
O "Xupa, mas não Baba" desfila em Laranjeiras. Na Urca,
"Só o Cume interessa". Em Vista Alegre, o "Encosta que ele
cresce". A Tijuca ganhou blocos novos: "Já Comi Pior, Pagando",
"Quero exibir o meu longa", "Deixa a Língua no Varal" e o
"Se me der, eu como", além do "Lavou, tá Limpo" (Praça
Seca), "Se Deixar eu Boto" (Pavuna), "Ou Vai ou Mama"
(Piedade); "É Mole, mas é Meu" (Irajá), "Buraco do Pau"
(Recreio). No Grajaú, "O Meu Face no Seu Book" e "Vai tomar no
Grajaú"; na Freguesia "Empurra que eu entro" e no Engenho Novo
"É Mole mas estica".
Mostra o fundo
Novos blocos foram criados também na Lapa: o "Enxota que eu
vou" e a "Banda das Quengas". No Santo Cristo, o "Pinto
Sarado" e o "É Pequeno, mas Vai Crescer". No Centro, na
quinta-feira, dia 27, saiu na Rua da Quitanda o bloco organizado pelos
bancários que trabalham com fundos de investimento: "Mostra o Fundo, que
eu Libero o Benefício". Ninguém fica de fora, nem quem é doente do pé.
Os cadeirantes organizados no Instituto Brasileiro dos Direitos das
Pessoas com Deficiência criaram, em 2007, o “Senta que eu empurro”, que desfila
pelas ruas do Catete e dialoga com outro bloco, o “Empurra que pega”.
O “Gargalhada” desfila neste domingo de carnaval em Vila Isabel,
com um intérprete de LIBRAS, a língua brasileira de sinais. Na realidade, dois
intérpretes que traduzem todo o evento para os surdos e ensinam aos ouvintes
presentes algumas palavras incluindo, entre os alunos, o próprio Rei Momo que
todo ano cumprimenta os surdos em LIBRAS.
Criado há sete anos para promover a inclusão dos surdos no carnaval, o
“Gargalhada” fez uma parceria com os grupos “Instituto Interdisciplinar Rio
Carioca” e “Anjos de Visão”, que congrega deficientes cegos, surdos
cadeirantes, anões, portadores de síndrome de Down, amazonenses e baianos
deslocados no Rio e quem mais quiser. Por favor, quero que me excluam DENTRO
dessa, se é que me faço entender.
Quem cai no samba todo ano, além dos doentes do pé, cadeirantes, surdos
e deficientes visuais são os considerados “doentes da cabeça”, no bloco “Tá
pirando, pirado, pirou”, criado em 2005 pelos portadores de sofrimento psíquico
do Instituto Pinel, seus familiares, funcionários de instituições de saúde
mental, simpatizantes e alguns bichos da fronteira, como nós, com um pé lá e
outro cá. Concentra na Rua Lauro Muller e desfila na Avenida Pasteur, na Urca -
sede do primeiro hospício da América Latina, o Pedro II. Dispersa na pracinha
do Pão de Açúcar. Neste ano, eu perdi o desfile.
Loucura suburbana
Na mesma linha, o “Loucura Suburbana”, formado por pacientes,
funcionários e familiares do Instituto Municipal Nise da Silveira. Desfilou
pelas ruas do Engenho de Dentro, na Zona Norte nesta quinta-feira, comemorado
os seus 14 anos de existência, com uma ala só de crianças, em torno do tema
"Manifeste-se". Mesmo no carnaval, não cessa a luta contra o estigma
da doença mental e pelo resgate da cidadania.
O carnaval acaba sendo também um espaço democrático e solidário do país.
Simboliza, neste caso, o que existe de melhor e de mais sadio na sociedade
brasileira. Constitui uma esperança saber que os excluídos estão se organizando
e reivindicando um lugar na sociedade e que existe muita gente que se
solidariza com eles. Com humor, os excluídos estão conquistando a cidadania. Um
país em que o doente do pé e o ruim da cabeça sambam com alegria tem que dar
certo.
Quando o "Loucura Suburbana" desfilava no Rio, eu me
encontrava em Belo Horizonte, na Universidade Federal de Minas Gerais, numa
banca de doutorado sobre o bakaru, o corpo de narrativas que contém
a sabedoria dos índios Bororo. A tese é tão boa que merece ser compartilhada.
Pensei até em escrever sobre o tema, como aconteceu em situações similares, mas
não é o momento apropriado. No carnaval, quem lê jornal?
P.S. De qualquer forma, fica aqui o registro. Leila Aparecida de Souza:
"Bakaru na comunidade indígena Bororo da Aldeia Central de Tadarimana, em
Rondonópolis - Mato Grosso: conceitos e manifestações". Programa de
Pós-Graduação em Educação. UFMG. 27 de fevereiro de 2014. Banca: Ana Maria R.
Gomes (orientadora), Maria Gorete Neto (co-orientadora), Karenina Vieira Andrade,
Ana Maria de O. Galvão, Paulo Isaac e José R. Bessa.
* Jornalista
e historiador
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