Demo, professor de lógica
* Por
Rubem Alves
Quem procurar um capítulo sobre o Diabo nos livros modernos de teologia
vai ficar desapontado. Ninguém mais acredita nele. Teólogo que escrevesse sobre
ele seria motivo de zombaria. Também os tempos mudaram. Antigamente era mais
fácil. Todo mundo sabia como ele era, e não eram poucos os que com ele se
haviam encontrado nalguma encruzilhada à meia-noite. Virou até herói literário,
por artes de Goethe, que descreveu sua longa convivência com um certo Dr.
Fausto. Não havia muito acordo sobre os detalhes, mas a maioria das testemunhas
afirmava ser ele um habitante das partes baixas do universo e dos homens, com
preferência pelos fedores sulfúricos que saíam dos orifícios da terra e dos
orifícios do corpo. Cheirou enxofre, por via das dúvidas um sinal da cruz não é
demais. Seu cultivo das partes baixas lhe concedeu virtudes extraordinárias
nessa área, sendo possuidor de qualidades fálicas incomparáveis, o que o
tornava um motivo da inveja dos homens que procuravam os
seus favores e das mulheres os seus amores.
seus favores e das mulheres os seus amores.
Diz-se que muitos velhos, diante do flácido veredicto da idade, venderam
a ele a alma por uns anos mais de virilidade. Também há muitos casos comprovados
e relatados em suas minúcias, perante assexuadas assembléias de clérigos, de
ligações libidinosas entre Satanás e mulheres de fogo incontrolável, bruxas,
com a resultado de filhos monstruosos, como no caso do bebê de Rosemary... Sua
forma de fauno, chifres, rabo e pernas de bode, indicava ser ele um ser de
vitalidade animal ilimitada, o que lhe dava o poder de conceder aos homens
realizar o prazer de suas paixões. O que explica as razões de haver ele sido
sempre associado ao fogo. Paixão é fogo. O Demo mora num lugar onde as paixões
estão em chamas. Seu palácio, o Inferno, segundo se dizia, era uma imensa
fornalha, e o combustível para tamanha fogueira eram os desejos da carne que
não se apagam nunca.
Hoje já é mais difícil encontrá-lo. O que levou muita gente a pensar que
ele não existe. Como me falta conhecimento de primeira mão, pois nunca o vi, quem
me instrui nestas coisas é o Riobaldo, jagunço, que por ser homem das solidões
do sertão, vê coisas que ninguém mais vê. E o que ele afirma (um espanto!) é
que “o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não
existe, aí é que ele toma conta de tudo”. E me veio então a suspeita de ser
esta a razão para o seu desaparecimento: por já haver tomado conta de tudo.
A se dar crédito no que diziam os antigos, seria de se concluir que ele está
bem no meio da guerra, pois não existe nenhum outro lugar no mundo onde as paixões
estejam ardendo tanto. O fogo de fora só faz atiçar o fogo de dentro. Os de lá,
os de cá, os inimigos e os aliados, todos iguais. Há as paixões do amor:
a saudade da casa, a carta da namorada, o retrato de um filho - tudo misturado
com as armas e as máscaras. Há as paixões do ódio: a raiva dos donos daquilo
tudo, o prazer de matar, o desejo de destruir. Há as paixões do medo: o medo de
morrer.. Inferno. É, o Diabo deve andar por lá.
Discordo. A coisa que o Diabo menos gosta é o Inferno. No Inferno moram os
homens. Ali se sente o cheiro da sua carne. Mas o Diabo tem nariz muito sensível.
Guerra é esgoto malcheiroso do mundo. Mas o Diabo é lá besta de gostar de
esgoto? Quem gosta? Assim como evacuar é o lado fétido da delicada operação de
comer, a guerra são as fezes da delicada operação de pensar. É disto que o
Diabo gosta: pensamento puro, sem paixão. Ele é um esteta. Contempla, analisa.
Jogador de xadrez. Dante disse que o Diabo é um ser glacial, que vive imóvel
dentro de uma montanha de gelo. Sua morada não é a paixão que vive nos lugares
baixos e quentes do corpo, mas a frieza que mora nos lugares altos da alma. O
Diabo é gelo. Inteligência pura, corpo magro, de hábitos alimentares ascéticos,
disciplina intelectual rígida, tendo chegado mesmo a autocastrar-se para fugir
da divina tentação do amor... Por isto fica sempre longe das loucuras infernais
das paixões, coisa dos homens. Para os que estão apaixonados, ainda resta uma
esperança.
É assim que ele faz as guerras. Não pelas emoções mas pela precisão científica
daqueles que pensaram as armas (e eles dizem: “Não matamos ninguém, só
pensamos”). Pela precisão econômica daqueles que fizeram os cálculos dos lucros
(e eles dizem: “Não matamos ninguém, só fizemos bons negócios”). Pela precisão
lógica daqueles que jogaram o xadrez da morte (e eles dizem: “Não matamos
ninguém, só pensamos a estratégia do poder”). Tudo limpo, tudo elegante, tudo
respeitoso, dito com voz calma e fria. Tudo é gelo. O Amor se apagou. Tudo é
lógica. Tudo é inteligência. E a inteligência pura é coisa do Diabo. “A
lógica”, dizia Guimarães Rosa. “é a força com a qual algum dia o homem haverá
de se matar. Apenas superando a lógica é que se pode pensar com justiça. Pense
nisto: o amor é sempre ilógico, mas cada crime é cometido segundo as leis da
lógica”
Não é de se admirar, portanto, que o Diabo não seja mais encontrado. Pois,
quando não existe, aí é que tomou conta de tudo. Onde mora o Diabo? Justo lá
onde se pensa que ele não está. Na inteligência pura.
* Escritor, teólogo e educador, membro da Academia Campinense de
Letras
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