JB, entre a ignorância e a maldade
* Por
Urariano Mota
Antes, quando escrevemos “Joaquim Barbosa, o herói da mídia”,
pensávamos que o ministro Joaquim já havia ido longe demais no desprezo aos
direitos, da lei, da natureza humana, e do que até então era norma no
STJ, que ele, Joaquim, à semelhança de um rei que tudo pode preside.
Já em meses anteriores, era cada vez mais claro que a sua condução do
julgamento era na essência política. Acompanhado e, mais que acompanhado,
acompanhando a pauta da mídia, ele era o cara da telenovela que transformara o
tribunal em cenário para um enredo de farsa, que vinha a ser a punição para os
corruptos em um novo Brasil. Sob a sua figura de Batman, o Supremo
Tribunal Federal se comportava em obediência à sociedade de classes, na feroz
luta política.
Ali, o conceito de prova se reinventava. Indícios, que por definição
seriam hipóteses, viravam fatos incontestáveis, sob o especioso argumento de
que era “impossível que o acusado não soubesse”. Houve provas como deduções da
retórica digna de sofistas, na base do se isso, então aquilo. O elementar de
qualquer tribunal do mundo civilizado, de que não basta supor, não basta
desconfiar, nem ter como provável. Esse elementar foi jogado às favas. O
objetivo do “julgamento” eram as conquistas de um governo de esquerda, que, se
trouxe ganhos maiores para o capital, também redistribuiu renda, e no que tem
de pior, um governo que ameaçava uma insuportável democracia: leis de regulação
da mídia, perdas irreparáveis de privilégios.
Então a sentença foi proferida bem antes do processo e das imagens das
togas à morcego entrarem no ar. No limite, o importante era preservar as
aparências da fiel observância às leis, no mais encenado rito. Mas o mal, a
maldade e a dura lei política havia de seguir até o fim. Mal adivinhávamos que
para o tamanho da sua ambição, Joaquim Barbosa desconheceria limites ou
pagamentos em arbítrio antecipados para Sua maior sagração. E nesse particular,
o onipotente ministro Joaquim Benedito, que Deus o aguarde, Barbosa foi
além. Avançou com risco de cadáveres de réus, como o de José Genoíno, que todos
sabiam sofrer de enfermidade cardíaca, além de permitir a violência contra
direitos básicos, assegurados em qualquer sentença de prisão.
Enquanto escrevo, corre um manifesto que denuncia as ilegalidades
cometidas pelo presidente Joaquim Benedito Barbosa aqui
Clique
aqui Nele se
pode ver que
“O
presidente do STF fez os pedidos de prisão, mas só expediu as cartas de
sentença, que deveriam orientar o juiz responsável pelo cumprimento das penas,
48 horas depois que todos estavam presos.Um flagrante desrespeito à Lei de
Execuções Penais que lança dúvidas sobre o preparo ou a boa-fé de Joaquim
Barbosa na condução do processo.
A
verdade inegável é que todos foram presos em regime fechado antes do ‘trânsito
em julgado’ para todos os crimes a que respondem perante o tribunal. Mesmo os
réus que deveriam cumprir pena em regime semiaberto foram encarcerados, com
plena restrição de liberdade,
sem que o STF justifique a incoerência entre a decisão de fatiar o cumprimento
das penas e a situação em que os réus hoje se encontram.
Mais
que uma violação de garantia, o caso do ex-presidente do PT José Genoino é
dramático diante de seu grave estado de saúde. Traduz quanto o apelo por uma
solução midiática pode se sobrepor ao bom senso da Justiça e ao respeito à integridade
humana.
Querem
encerrar a AP 470 a todo custo, sacrificando o devido processo legal. O julgamento que começou
negando aos réus o direito ao duplo grau de jurisdição conheceu neste feriado
da República mais um capítulo sombrio”.
Agora, vem a melhor do Bendito todo-poderoso: o ministro lança o
Brasil numa crise institucional, num conflito entre poderes da República. Para
caçar Genoíno, ele cassou o mandato de um parlamentar, ao mesmo tempo em que
cassou uma prerrogativa do Poder Legislativo. As últimas notícias falam que o
presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, não vai cumprir a determinação do
presidente do STF de cassar automaticamente o mandato do deputado
licenciado José Genoino. Ainda que o STF determine o cumprimento dessa mera
“formalidade”, a Câmara dos Deputados vai analisar com muita isenção, à
semelhança de Joaquim Benedito, a cassação de um parlamentar por outro poder.
E agora, Joaquim? O que desejas além da óbvia candidatura à presidência
do Brasil? Será que não percebes o abismo que podes cavar com a tua imensa
gula?
Melhor que a telenovela Amor à Vida, os próximos capítulos da
política brasileira serão emocionantes. Mas o verdadeiro papel jogado pelo
César do Supremo ainda não passa na televisão. Por enquanto, ele ainda é o
caçador de corruptos.
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Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações
Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici e “Soledad no Recife”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao
ensino em colégios brasileiros.
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O que está unânime demais levanta suspeitas. Nem todos os brasileiros são obedientes soldadinhos de chumbo marchando cegos em direção ao fogo.
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