domingo, 3 de novembro de 2013

A crucificação do professor

* Por Arita Damasceno Pettená

Diz Brecheret: “Do rio que tudo arranca, se diz violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem!”. Realidade das realidades, o magistério se nos depara como esse rio caudaloso, correndo sobre leitos indomáveis, enfrentando pedras em sua caminhada, turvando suas águas com o sangue e o suor de um trabalho incessante e muito pouco reconhecido, sem divisar, no horizonte, quaisquer vislumbres de esperança. Comprimidos, pelas margens do poder, assistimos, estarrecidos, a momentos críticos pelo desenrolar de nefastos acontecimentos que envolvem a cúpula e o Congresso em corrupções realmente inomináveis. E perguntamos: até quando esse rio vai correr sem devorar as margens opressoras, violentas, dominadoras dos que “executam” almas no campo minado da insensibilidade e dos muitos descalabros? Até quando esse rio vai correr sem dar o seu grito de inde pendência, entre as margens poluídas dos que “legislam” em causa própria, arrancando dos bolsos vazios do povo impostos que pagam as mordomias de suas insolências e seus constantes voos por um céu em abandono? Até quando esse rio vai correr sem dar um basta aos que dizem “fazer justiça” e navegam em águas mansas e serenas sem descobrir, no fundo do poço, pobres páreas afundando em dívidas, dúvidas e exíguas dádivas?

Sim, esse rio há de correr até o dia em que a paciência naufragar pelos mares da miséria e resgatada a dignidade de cada cidadão, formos capazes de transformar a máfia do poder em escudos humanos na luta por nossos direitos.

Violentados em nossos mais lídimos sonhos, triturados na máquina que reduz o homem ao pó de seu calvário, moídos como o trigo que nem sempre chega ao altar da consagração, nada caolha, que só enxerga do lado que lhe convém e esquece o que Peter Drucker disse certa feita: “O reator da economia moderna não é a fazenda, não é a fábrica, não é o banco. É a escola”.

Num artigo, ainda, do saudoso Joelmir Beting, ele assim se pronunciava: “O sistema educacional brasileiro está pregado na cruz”. E não precisa ser sexta-feira santa para assistirmos, a cada dia, à crucificação em massa do magistério. Alguns aposentam diplomas que a vocação expediu e preferem vender salgadinhos lá fora a ter de aguentar classes numerosas, chicotadas do “patrão”, jornadas impiedosas para receber, no fim do mês, nem a décima parte do que ganha o porteiro do Congresso.


Enquanto isso vão ficando nossos filhos entregues a professores estressados, apresentando algumas delegacias um índice assustador de educadores em licença médica, porque não conseguirem enfrentar mais uma jornada impiedosa e um aviltante salário. E assim vai chegando este País às manchetes, incluso no quadro-negro de números que nos envergonham e que o colocam numa situação que está muito mais para submundo do que para qualquer lugar deste miserável mundo. Muito mais para africano que para europeu, com 39% apenas de alunos que concluem o ensino fundamental.

É hora de colocar colírio nas pupilas, não do Senhor Reitor, mas do aprendiz governador que, gritando, em campanha, ser saúde e educação prioridade de sua administração, até hoje não deu sinal de aquecimento no sentido de tirar do patamar vergonhoso em que jazem, há muitos e muitos anos, os míseros salários de nossos profissionais da Educação.

* Arita Damasceno Pettená é professora, escritora e membro da Academia Campinense de Letras


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