Qualidade mais que
compensa a quantidade
O início da carreira
literária de João Ubaldo Ribeiro – precoce, conforme destaquei em texto
anterior – sugeria que o gênero de sua predileção seria o conto. Afinal, sua estréia
deu-se com uma história curta, quando tinha apenas 18 anos de idade e certamente
nem lhe passava, mesmo que remotamente, pela cabeça, que chegaria onde chegou.
Aliás, seus três primeiros livros sequer foram propriamente “seus”. Foram
antologias de contos: “Panorama do conto baiano” (Imprensa Oficial do Estado), “Reunião”
(junto com David Salles, Sônia Coutinho e Noênio Spinola) e “Histórias da Bahia”
(Edições GDR, Rio de Janeiro, 1963, que serve de referência para esta série de
estudos sobre alguns dos principais ficcionistas baianos).
João Ubaldo Ribeiro
consagrou-se foi no romance, havendo publicado dez memoráveis livros de “histórias
longas”, dessas de fôlego, que parecem fáceis de escrever, mas que nunca são,
como destaquei em texto anterior. Todavia, mesmo dedicando-se pouco ao conto, é
tido e havido como um dos grandes contistas da atualidade. Compensou a
quantidade (pouca) com qualidade (imensa). Quem saiu ganhando fomos nós, seus
leitores.
O segundo gênero a que
mais João Ubaldo se dedicou e, a rigor, continua se dedicando mais do que
nunca, é a crônica. Quem lê nos grandes jornais do País (e do Exterior) as que
publica com invejável regularidade sabe e reconhece o quanto ele é excelente
cronista, entre os melhores da Literatura brasileira. Está entre meus
preferidos, óbvio (caso contrário, conforme meu critério pessoal, não estaria
escrevendo a seu respeito, já que escrevo somente sobre quem aprecio). Tenho
várias pastas com recortes desse tipo de texto, em minha hemeroteca, a maioria
publicada no jornal “O Estado de São Paulo”, mas diversas delas também no “O
Globo”, do Rio de Janeiro.
Aliás, sua participação
na imprensa é das mais copiosas e brilhantes. Diria: também estafantes. João
Ubaldo colabora, além de com os jornais que mencionei, também com o “Jornal da
Bahia” (e nem poderia ser diferente). Isto no Brasil. Mas também escreve para o
“Frankfuter Rundschau” e o “Die Zeit”, da Alemanha; o “The Time Literary
Suplement”, da Inglaterra e “O Jornal” e o “Jornal das Letras”, de Portugal.
Publicou, até o momento, seis livros de crônicas, a saber: “Sempre aos domingos”
(1988, com textos publicados em “O Globo”), “Um brasileiro em Berlim” (1995), “Arte
e ciência de roubar galinhas” (1999), “O Conselheiro Come” (2000), “A gente se
acostuma a tudo” (2006) e “O rei da noite” (2008). Espero que não tarde em
lançar novas publicações do gênero. Material para isso, não tenho dúvidas, tem
em profusão.
Em 1983, João Ubaldo
Ribeiro lançou-se em outra “aventura literária”, que eu não teria coragem (e
nem tenho talento) para me lançar e se deu muito bem. Refiro-me à literatura
infantil. Trata-se de tarefa das mais complexas essa de narrar histórias para
crianças, na linguagem que lhes seja acessível, e prender, desse modo, sua
atenção. Requer-se uma virtude que raros escritores têm. Ou seja, a da
simplicidade, sem se descambar para a banalidade ou até para a imbecilidade,
como muitos fazem. Foram três os seus livros lançados para essa faixa etária,
muito mais exigente do que os desavisados podem supor: “Vida e paixão de
Pandonar, o cruel”, “A vingança de Charles Tiburone” e “Dez bons conselhos de
meu pai”. Este último foi publicado há apenas dois anos, em 2011 e, se não
estou enganado, foi a última obra que publicou. Acredito, no entanto, que seja,
na verdade, a primeira de uma nova e extensa série. Pelo menos é o que eu e
milhões de leitores esperamos.
Não se pode esquecer do
único livro de ensaios de João Ubaldo Ribeiro. Ele é contundente, incisivo e
bastante atual (diria, até, essencial), embora publicado há 32 anos. Seu
próprio título já sugere isso: “Política: quem manda, por que manda, como manda”.
É datado de 1981, quando o País estava em plena ditadura militar, ocasião em
que era indispensável ser muito cuidado ao abordar assuntos políticos para não
desagradar os poderosos de plantão.
O leitor arguto
certamente já notou que, ao enumerar a bibliografia de João Ubaldo Ribeiro, não
mencionei um único livro “solo” de contos (objeto destes estudos). Citei,
apenas, as três antologias em que teve textos incluídos. Ocorre que ele
publicou, apenas, duas obras do gênero, uma das quais republicada, dez anos
após a publicação original, com acréscimo de duas histórias e com novo título.
A primeira foi “Vencecavalo e o outro povo”, que era para se chamar “A guerra
dos Pananaguds” e cujo nome foi mudado em cima da hora. Esse lançamento, da
Editora Artenova, se deu em 1974. Em 1981, João Ubaldo lançou o segundo livro “solo”
de contos, intitulado “Livro de Histórias”. Em 1991, porém, ele foi reeditado,
com o acréscimo de duas histórias curtas, “Patrocinando a arte” e “O estouro da
boiada”. E o título, dessa reedição, passou a ser “Já podeis da pátria filhos”.
Como se vê, por mais
sucinto que eu pretenda ser, nesta série de estudos, há tanta coisa, e
imprescindível, a ser dita, sobre cada personagem, que mal cheguei à metade
dela e já escrevi o equivalente a um maçudo livro de mais de trezentas páginas.
Há uma infinidade de referências sobre determinados escritores e praticamente
nenhuma sobre outros, que sei serem importantes para a Literatura regional e
nacional. Tentarei, todavia, ser mais ágil nos próximos textos, na medida do
possível, embora sem omitir dados que considere essenciais.
Boa leitura.
O Editor
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O homem é bom, porém sem muita saúde. No congresso de diabetes, em Salvador, ele fez a palestra na qualidade de ter diabetes.
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