Nem todo dia é domingo
* Por
Cida Pedrosa
Naquela quarta-feira, Bruna cumpriu o ritual. Chegou meia hora antes do
expediente começar. O dia já ia longe. Farda passada café da manhã bolsa
escolar lancheira camisa do marido marmita e até uma oração apressada antes de
sair da cama. O dia já ia longe. Caminho da escola bolsa cheia de livros mãos
de crianças pasta executiva biscoito preferido do chefe saia de secretária
apertada e o sapato scarpin salto fino comprado na ponta de estoque da fábrica
local. O dia já ia longe. Parada de ônibus motorista sem sexo cobradora com
sono e passageiros em pé. O dia já ia longe.
Naquela quarta-feira, Bruna cumpriu o ritual. Chegou meia hora antes do
expediente começar. Silêncio no escritório uma voz no andar de baixo e o
barulho da CPU engrenando para a execução do Windows.
Naquela quarta-feira, Bruna cumpriu o ritual. Acendeu um incenso e
entregou-se à cadeira giratória para acessar a caixa postal. Reconheceu o login
de uma velha amiga da escola e entre curiosa e alegre, abriu o e-mail de
Evânia. Enquanto espera o download do arquivo, deleta várias mensagens sacanas
e pensa: — Por que a Karina continua mandando esses e-mails de sexo?
(O postcard de Evânia enche a tela de cores, paisagens longínquas,
mensagens de paz e a voz de Louis Armstrong cantando: What a wonderful world se instala na sala. Um dois três quatro
cinco slides... Quebre as amarras,
esqueça os muros, se entregue às estrelas, em algum lugar existe alguém esperando
você. Malásia Albânia China Nigéria e luzes de Paris. Letras que brilham
bailam entram e saem da tela.)
— São cinco para as oito horas e o elevador se aproxima do décimo nono
andar, carregando os trabalhadores pontuais —.
Naquela quarta-feira, Bruna cumpriu o ritual. Levantou-se, tirou o
sapato e andou para a sala contígua. No computador Louis gorjeia o último
verso: Sim, eu penso comigo... que mundo
maravilhoso. A janela convida, a saia se rasga, o corpo se parte e Bruna
não houve o grito do chefe: — Está demitida. Já lhe disse várias vezes, que
aqui não é sua casa para acender incenso e deixar o sapato rolando na sala. A
vida já ia longe.
*
Poetisa e vereadora no Recife
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