Minha vida é um livro fechado
* Por
Fernando Yanmar Narciso
Creio que, por mais revolucionária que uma pessoa seja capaz de se
mostrar, em nossa essência somos muito conservadores. As prioridades podem ser
outras, mas no fundo os humanos buscam apenas chegar ao fim da vida com algum
conforto. Num ano em que a palavra de ordem foi o protesto, estivemos
basicamente reivindicando o básico para a sobrevivência. Quem pôs o narizinho
de palhaço ou a máscara de V de Vingança e foi sapatear nos telhados de
Brasília, assim como os grevistas, eles querem simplesmente melhoras no que já
possuem, e não mudanças radicais, que podem tanto melhorar ou piorar a
situação. Saúde, educação, dinheiro, segurança, combate à ladroagem e à
arrogância dos políticos; o básico do básico para uma vida digna. Coisas tão
simples e, no entanto, aparentemente impossíveis de conseguir um consenso...
Sendo que já temos um governo “de esquerda” há tempo o bastante para
envelhecer um barril de uísque e os problemas da época eram quase os mesmos de
agora, por que no tempo de Lula no poder não se via protestos pelas ruas? Se
bem me recordo, nem quando o caso do mensalão explodiu, as pessoas tiveram saco
para erguer-se em armas contra o governo. Isso porque, por mais coronelista e
sacana que Lula seja, ele parece ter herdado o histórico dom do presidente Franklin
Roosevelt de acalmar as massas, mesmo quando o estupro era inevitável.
Temos sim o direito de ser conservadores, mas sem necessidade de
ultrapassar a barreira do bom senso e se tornar um retrógrado xiita e
reacionário, como tantos formadores de opinião por aí. Pessoas do naipe de
Olavo de Carvalho, Arnaldo Jabor e Luiz Carlos Prates- um de meus ídolos...-
têm a nobre missão de olhar para o caos à sua volta e dizer lugares-comuns como
“No tempo de meus avôs isso não acontecia”, ou “No tempo dos tucanos no poder
não tinha tanta bandalheira”, ou, ainda pior, “Tempo bom era quando os
militares mandavam no país!” Parece que alguns deles nunca estiveram num DOPS
da vida ou foram deportados ilegalmente para algum cafundó do mundo. Pois não é
que os rebeldes e subversivos músicos remanescentes dos tempos da ditadura, que
foram torturados, interrogados e exilados pelos meganhas de Médici, os heróis
da MPB de várias gerações têm se revelado verdadeiros “reaças” conforme foram
amadurecendo e se acomodando?
Chico Buarque, Roberto Carlos, Erasmo, Djavan, Milton Nascimento,
Caetano e Gil cortaram papo e não querem mais deixar publicar nenhuma biografia
não-autorizada!
Isso mesmo, folks. Para chegar às prateleiras, só se o livro passar pela mão de
ferro dos recém-revelados censores, para poder ainda por cima conseguir uma
boquinha com os direitos autorais. Dá pra acreditar numa afronta dessas? Quer
dizer, se até Justin Bieber, no alto de seus 19 anos, já tem quase uma dúzia de
biografias underground- E eu já li quase todas, são um ótimo antídoto
para overdose de Viagra- então por que essas cobras criadas da música pra
barzinho, vulgo MPB, resolveram usar da censura a essa altura de suas vidas?
Dizem que estão tomando essa medida como um exercício do direito à
privacidade, mas do tanto que a vida desses antigos símbolos da liberdade de
expressão já foi esmiuçada, o que faltaria para ser contado? Agora só me
surpreenderia se algum biógrafo dissesse que o Rei Roberto nasceu com uma
cabeça extra, saindo pelas costas, ou que em seu exílio, Chico Buarque dividiu
uma lata de lixo com o mesmo palhaço que Raul Seixas vivia dizendo que fez
amizade quando foi deportado para Nova Iorque. Na verdade, seria pego de
surpresa até se alguém publicasse que Caetano e Gil tiveram trigêmeos... E Gil
foi a mãe.
Provavelmente, essa nova cruzada de nossos amados artistas para barrar
biografias feitas pela imprensa marrom só poderá ter duas saídas: Ou os já
citados figurões se arrependem do que disseram e voltam atrás, ou mais gente
tentará burlar a censura prévia e lançará biografias “ilegais” na cara dura,
pois como se sabe, a proibição de qualquer coisa só faz crescer a vontade de
fazê-las. As declarações polêmicas a respeito do problema feitas por eles, e as
sucessivas tentativas de “remendar” as besteiras que falaram, deram a letras
contundentes e sangrentas como Cálice e É Proibido Proibir um
acidental tom de rebeldia oportunista. Será que, no final das contas, aqueles
músicos heróicos dos festivais da TV Record dos anos 60 pensavam do mesmo jeito
que as versões parcialmente senis de hoje?
Pior é que o conservadorismo parece ser o caminho da roça para a maioria
dos músicos quando atingem os 50 anos ou perdem um pouco de sua relevância no
meio musical. O que dizer de Dave Mustaine, lendário líder da banda de metal
Megadeth, ter se filiado ao partido Republicano há alguns anos, ou de Roger
Moreira, com suas letras de protesto da década de 80, ter aceitado que o
Ultraje a Rigor se tornasse a bandinha do programa de Danilo Gentilli? A única
pessoa que já vi ultrapassar a barreira dos 80 anos com o mesmo sentimento
rebelde da adolescência foi o político Plínio de Arruda Sampaio. Até o
comentarista Reinaldo Azevedo, imortalizado por suas vociferações de
extrema-direita e pela falta de humor, tem se esbaldado com a situação e feito
ataques cínicos e iconoclastas às declarações do autor de Ópera do Malandro,
chegando ao inimaginável cúmulo de vociferar contra os erros de ortografia no
direito de resposta do poeta.
Infelizmente, tudo indica que nossos heróis morreram mesmo de overdose,
em algum momento entre o AI-5 e a eleição de Collor... Quero ver alguém
contestar os impropérios do Lobão agora!
*Designer e escritor. Sites:
HTTP://www.facebook.com/fernandoyanmar.narciso
http://cyberyanmar.deviantart.com
HTTP://www.facebook.com/terradeexcluidos
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Nossa! Atirou para tudo quanto é lado. Sai de baixo. E prepare-se para as respostas que virão.
ResponderExcluirÉ tudo farinha do mesmo saco!!!
ResponderExcluirTem razão Mara, quando Fernando começa a redigir lá vem chumbo grosso. Seu estilo irreverente e bem humorado é inconfundível. O título da crônica não poderia ser outro: Minha vida é um livro "fechado" (aspas minhas) no que tange ao cerco (censurável) às biografias.
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