Feliz aniversário
* Por Daniel Santos
O
menino preferia ficar em casa, fazer seus “boizinhos” com batatas e palitos de
fósforos, escorregar pela ribanceira numa prancha de papelão, puxar pela rua o
“trenzinho” de latas de sardinha. Só queria vadiar.
Às
tias, pediu um bolo com recheio de doce de leite e um laguinho de espelho em
cima com um cisne de plástico, além de muitos confeitos, balões multicoloridos
e balas embrulhadas em papel fino de franjas.
Mas,
não. Não era mais assim que se fazia. Por isso, levaram o garoto à cidade,
enfeitaram-no numa butique fina, o cabeleireiro fez-lhe um penteado da moda e
foi, enfim, para a mansão alugada para a festa.
No
seu aniversário, estava amuado, mas a custa de beliscões a mãe lhe ensinou a
sorrir. E assim deveria receber um a um na entrada, porque vinha gente de
longe, gente do trabalho do pai, especialmente para vê-lo.
Fez
o que lhe disseram, embora desconhecesse os convivas. Onde, os amiguinhos da
rua? E as tias mais pobres? Talvez viessem mais tarde. Ficou na entrada
esperando, enquanto lá dentro os demais se divertiam.
* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e
redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de
São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou
"A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e
"Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o
romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para
obras em fase de conclusão, em 2001.
Em cena o contraste entre a realidade e a encenação. Triste isso.
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