Mês do Folclore
Agosto é tido e havido,
pelos supersticiosos, como um “mês de azar”. E todos nós temos (uns mais e
outros menos), nossas “superstiçõezinhas” (muitos têm “superstiçõezonas”),
embora neguemos enfaticamente sempre que questionados. Conscientemente, até que
não acreditamos nessas crendices, mas inconscientemente, lá no fundo de nossa psique,
cremos nessas coisas absurdas e irracionais. Por que? Sabe-se lá! É possível
que se trate de algum resquício do homem primitivo, ancestral de todos os viventes,
incrustado em nossos genes. É a tal da memória coletiva, identificada e
descrita pelo psicanalista Carl Gustav Jung.
Os políticos (pelo
menos os brasileiros, mas não sei se também os de outros países) acreditam, com
base em algumas coincidências (coincidências?), que os dois meses do ano,
iniciados pela letra “a”, seriam “azarados”. Estão, nesse caso, óbvio, além de
agosto, também abril. Os raros que admitem ter essa superstição, apontam uma série
de episódios ocorridos nesses dois períodos como justificativa para essa crença
irracional. Esquecem-se que, no restante do ano, fatos não raro muito mais
dramáticos e contundentes acontecem a todo o momento. Porém, é impossível
convencer os crédulos. E estes, claro, abundam. Há os que negam serem
supersticiosos de forma até pitoresca. Dizem, quando questionados: “Supersticioso,
eu?!! Não, não sou! Isto dá um azar danado!!!”. Ora, ora, ora...
Os crédulos citam, por
exemplo, que foi num mês de abril (num dia 7 do ano de 1834), que o primeiro
imperador do Brasil, Dom Pedro I, abdicou do trono em favor do filho, menor de
idade, deflagrando uma crise institucional de grandes proporções, que só acabou
seis anos depois, em 1840, com a antecipação da maioridade do seu sucessor, que
legalmente deveria se dar apenas em 1844, quando tivesse 18 anos, mas que foi
antecipada tão logo completou 14 anos. Claro que isso poderia ocorrer em
qualquer mês. Contudo... aconteceu em abril.
Mas os crédulos não se
restringem a esse fato. Citam a execução de Joaquim José da Silva Xavier, o “Tiradentes”,
executado na forca em um mês de abril (no dia 21 do ano de 1792). E vão mais
longe em sua paranóia. Mencionam a morte do último presidente eleito pelo voto
indireto no País, Tancredo Neves, ocorrida na mesma data, mas de 1984, que
quase deflagrou uma crise institucional de proporções imprevisíveis, dando
pretexto aos militares de prolongarem a ditadura, em vez de devolverem o poder
aos civis. Isso só não aconteceu porque o general João Batista Figueiredo não
insistiu nesse ponto, embora tenha se recusado a passar a faixa presidencial ao
vice, José Sarney.
Considero tremenda bobagem
rotular abril de “mês azarado” apenas por esses três fatos isolados. Enfim... o
supersticioso contumaz sempre encontra argumentos para sustentar suas
superstições. Ocorrências muitíssimo piores se verificaram em outros meses dos
vários anos, mas... Deixa pra lá!!! Quanto a agosto, é considerado, entre
outras coisas, como o “mês do cachorro louco”. Como se a hidrofobia dependesse
de períodos específicos para se manifestar. Claro que não depende. Mas vá
convencer os supersticiosos!!! Não tem jeito.
Quanto ao “azar” de
agosto, na política, são citados, basicamente, um suicídio e uma renúncia de
presidente para justificar a prevenção em relação a esse período. Além desses
dois fatos, desconheço qualquer outro acontecimento que justifique minimamente
a pecha impingida a esse mês. Há quem mencione as destruições de Hiroshima e
Nagasaki, pelas primeiras bombas atômicas lançadas sobre populações civis
indefesas na história, ocorridas nos dias 6 e 8 de agosto de 1945,
respectivamente, mas esses fatos ocorreram no Japão. Ademais, foi nessa mesma
ocasião, no dia 12, que aconteceu a rendição japonesa, que pôs fim, em
definitivo, à Segunda Guerra Mundial, que tem que ser considerado como evento
positivo.
Getúlio Vargas
suicidou-se na madrugada de 24 de agosto de 1954, com um tiro no peito, em seus
aposentos no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, no auge de uma crise institucional
que fatalmente redundaria na sua deposição, caso não tivesse dado cabo da vida.
Sua morte agravou uma situação que já era grave por si só. Ele foi sucedido por
três presidentes diferentes, em meio a terríveis tensões, instabilidade que só teve fim com a eleição de
Juscelino Kubitschek (que quase foi impedido pelos militares de assumir). Mas crise
toda teve algo a ver com o tal do “mês do azar”? Absolutamente não! Foi mera
coincidência ocorrer nesse período.
O mesmo se pode falar
da renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, que ele
atribuiu à ação de “forças ocultas”, que nunca identificou quais eram. Foram
duas situações críticas, sem dúvida. Mas é mister ter em conta que o Brasil, em
termos políticos, é, e sempre foi, “viciado em crises”. Ou não é? Basta ler
atentamente nossa História que a conclusão saltará à vista do mais distraído
dos distraídos. E nenhuma delas (à exceção das que citei) teve nada a ver com
os meses iniciados com a letra “a”, tidos e havidos como azarados. Essas coisas
também podem ser catalogadas como “folclore”. São crenças, crendices e
superstições arraigadas na memória coletiva do brasileiro. Não por acaso (ou
será que foi casual?) agosto foi escolhido como o “Mês do Folclore” no Brasil,
como poderia ser, também, convenhamos, o pseudo-azarado abril.
Boa leitura.
O Editor
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk.
As desgraças são tão abundantes que será preciso criar mais meses para melhor distribui-las no calendário. Não há uma quinzena que não tenha um fato local, regional, nacional ou global para assustar a humanidade. Os pobres meses, divisões do ano ao acaso não têm nada com isso.
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