Fazendando-se
* Por
Marcelo Sguassábia
Ia abrindo a picada no
facão. Pelo queimar do sol, meio dia e meia, se tanto. No verde fechado luziu a
chave, a dourada chave-mestra dos lugares improváveis. Velha Dita benzedeira,
dai-me caminho bom. Pai do mato e das estrelas, daqui não tem retornar nem arrependimento
de ver coisas que não carecem ser vistas. Desse ponto por diante é por minha
conta e risco. Lembrava a mãe que dizia: "do mato guarde distância".
Limpou o achado no brim
cáqui, e no retomar da trilha um jacarandá dos baitas se fez porta à sua
frente. Nessa hora virou rosto, e dá-lhe Salve Rainha implorando proteção – o
ocorrido não era acontecência cristã. Temor de obra do cão, vontade de colo
quente.
A dobradiça rangeu, e foi
sugado num tranco para dentro da casa grande. Deu com a carcaça no gelo das
pratarias, baixelas da mesa posta para um jantar de calendário incerto. Botou
reparo no pedaço de varanda que se via da janela, e assim ficou tempo imenso
até que um ruído de saias o trouxe, em saltos mortais, às anáguas e espartilhos
da sinhazinha que ia entrando. E varava livremente as camadas todas de pano e
de castidade, mas num remorso de incesto que não cabia explicar. Uma ancestral
de si, ali a pleno frescor, quem não garante que era? Sinhazinha de respeito e
jeitos misteriosos, empunhando livro e leque, o olhar mirando o caminho da
entrada da propriedade.
De novo o efeito
centrífuga, sem chance de escapatória. Foi sendo puxado de costas rumo ao
carrilhão de mogno. Por entre molas e engrenagens, laçou o ponteiro de minutos
e ali ficou bem montado até que o das horas viesse e o levasse são e salvo ao
XII do mostrador. Um cheiro de óleo de máquina se misturou ao de tinta, no
instante em que se deu conta que estava no quadro da sala, de moldura
quebradiça, herança do engenho velho. Retrato de gente austera, ele era o homem
da tela, e em frente a ele outro homem, paleta e pincel nas mãos, dava os
últimos retoques. Um passo atrás para olhar melhor o todo da obra acabada. Vira
a cabeça pra um lado, vira a cabeça pro outro. Falta um tonzinho de amarelo
queimado na testa, acima dos cílios. Agora sim, a assinatura. Nome e data sobre
tela. Ali ficará, imóvel, pelos séculos dos séculos, olhando quem se achegar à
sala da grande sede da Fazenda Santa Lúcia.
* Marcelo Sguassábia é
redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Começou como sonho e terminou como pesadelo. De vivente passou a imagem de uma tela. Narrativa alucinante, na qual os rumos vão se alternando e pregando o leitor na leitura.
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