Espantoso e
atemorizador
A figura de Benvenuto
Cellini causa espanto e admiração nas pessoas que tomam conhecimento tanto da
sua vida, aventurosa e marginal, quanto de sua obra, magnífica e imortal. É
tão, digamos, “exagerada”, que se não houvesse sua autobiografia, intitulada “Vita”,
em que confessa e descreve em detalhes, de forma inusitada pela crueza das
descrições, não apenas seus êxitos artísticos, mas seus erros, aventuras (inclusive
amorosas) e inúmeros crimes – tanto os homicídios que cometeu, quanto os
furtos, roubos e fraudes que perpetrou – acharíamos, quase meio milênio após
seu nascimento, que se tratou de personagem de ficção. E mais, daqueles que seu
criador exagerou na dose, carregou nas tintas, tornando-o mais cruel e feroz do
que o mais maldoso dos homens possa ser.
É impossível que uma
única pessoa consiga, mesmo que escreva sua biografia em vários volumes,
esgotar o assunto ao relatar sua trajetória. Como também é impossível escrever
a seu respeito com neutralidade, sem fazer juízo de valor. Li uma quantidade
enorme de textos sobre ele e até o momento não consegui chegar a qualquer
conclusão. Não sei se a classificação mais aproximada de quem se tratou de fato
é a de gênio ou de louco furioso. Se de anjo, capaz de produzir, com a magia
das mãos, obras de arte sublimes, inigualáveis, que beiram à perfeição ou se
demônio, feroz e sanguinário, com vaidade sem limites que raiava à
autodeificação. Se de magnífico artista, na melhor acepção do termo ou se perigoso
bandido, cuja presença em sociedade era sinônimo de permanente perigo. Sou
tentado a classificá-lo nos dois extremos.
As várias
enciclopédias, dada até a natureza desse tipo de publicação, focalizam,
preferencialmente, sua obra, à prova de reparos. Citam, esporadicamente, em um
ou dois parágrafos se tanto, suas ações criminosas que, no entanto, passam
batidas e que o leitor desatento sequer presta atenção. Algumas sequer
mencionam esse aspecto. Provavelmente, consideram-no irrelevante. Mas seria
mesmo? Creio que não!
Um dos melhores
trabalhos que li sobre essa assombrosa figura (tomando, aqui, a palavra “assombro”
em ambos os sentidos, tanto no positivo, que se refere à sua genialidade
artística, quanto no negativo, o da sua propensão para o mal), não é nenhuma
biografia, embora haja muitas excelentes, inclusive traduzidas para o português.
Trata-se de uma tese universitária, de autoria de Laís Freitas de Souza, datada
de 2010.
O referido trabalho
acadêmico é de fim de curso, de doutorado no Programa de Pós-Graduação em
Literatura Italiana do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (Ufa!!!). Recomendo-lhes
que o leiam. O texto é facilmente localizável na internet. Embora seu foco seja
o literário (já que esse personagem polêmico e espantoso foi também escritor, autor
não apenas da citada autobiografia, mas de outros dois livros, inclusive um de
poesia), dedica alguns capítulos a informações e análises sobre o homem. O
título da tese sugere, por si só, qual seu foco preferencial: “A autobiografia
de Benvenuto Cellini no Brasil do século XX: subsídios para estudos de
tradições e adaptações”. Reitero, é uma leitura que recomendo a quem queira se
aprofundar na vida e na obra dessa figura que merece, mais do que ninguém, o
rótulo de “excepcional”, no sentido de originalidade em qualquer aspecto que se
a analise.
Dada a natureza deste
espaço, dedicado, basicamente, à Literatura, interessa-me, particularmente, na
tese de Laís Freitas de Souza, o Cellini escritor, o que tentarei abordar,
posto que com a forma muito sucinta que o Literário exige, nos próximos dias. Destaco,
todavia, este trecho da autora, bastante esclarecedor a propósito: “A ‘Vita’
(autobiografia) não é a única produção literária de Benvenuto Cellini. Temos
ainda os ‘Trattati’ e as ‘Rime’. Os ‘Trattati’, como o próprio nome sugere,
ficaram mais restritos ao campo das técnicas. Afinal, registram e descrevem
processos nas áreas da escultura e da ourivesaria, servindo até os dias atuais
nas escolas que tratam dessas artes. Já a sua produção em versos, reunida em
suas ‘Rime’ é considerada pela grande maioria dos críticos um mero passatempo
de Cellini, diminuindo sua relevância em relação à sua maior produção
literária: a ‘Vita’”.
Uma das coisas que mais
causam admiração (entre tantas outras) refere-se a onde e como esse personagem
complexo e polêmico encontrou tempo para compor sua obra literária, tendo que
fugir, praticamente sem tréguas, de ferozes e poderosos inimigos buscando
vingança e, sobretudo, da justiça, por suas ações marginais, à margem das leis
e dos bons costumes. Laís esclarece: “A decisão de Cellini de escrever sua
autobiografia só veio em idade avançada; afinal, ‘Vita” foi escrita entre 1558
e 1566, quando o artista era quase sexagenário. O início da composição de suas
memórias coincide com o período em que perde a proteção do Duque Cosme I e
continua se envolvendo em brigas, que o levaram a questões judiciais e a gastos
desnecessários.
Em outro trecho, Laís
informa> “Um pouco antes de iniciar a escrita de suas memórias... Cellini
teve que voltar à prisão, em 1556, sob diversas acusações... Foi nesse período
que Benvenuto Cellini escreveu quinze sonetos que o crítico (Marziano
Guglielminetti) chamou de ‘spazio interiore autentico’”.
Boa leitura.
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Espantoso o biografado, e mais ainda sua fluência, Pedro, neste estranho personagem.
ResponderExcluirObrigado, Mara. Faz um bem imenso à alma, principalmente em dias em que estamos carentes e com problemas muito chatos (como estou hoje), saber que alguém, generosa e amiga, no caso você, lê o que escrevemos e se manifesta a propósito, elogiando ou criticando, não importa. Neste momento, chego até a ouvir sua voz expressando palavras de simpatia e de ânimo. Você sabe que a considero grande amiga, mesmo sem que jamais tenhamos nos encontrado? Pois é. Você é, antes de tudo, humana, característica que está se tornando cada vez mais rara num mundo povoado por “sombras”, por máscaras, por números, por fantasmas.
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