Coquetel molotov com muito gelo e dois dedos d’água
* Por
Fernando Yanmar Narciso
Por que o fogo da batalha se arrefeceu? Por que aquela onda de ufanismo,
com todos cantando aos berros o hino nacional, um antigo inimigo de 9 entre 10
brasileiros por causa de sua flatulência verborrágica, se encolheu novamente?
Ainda na época que a bomba explodiu, já desconfiava que nossa gente se
aproveitou da Copa das Confederações pra avacalhar o país diante dos olhos do
mundo, e mostrar às nações que o Brasil não é o jardim do Éden estampado nos
folders de agências turísticas. Aí, o evento acabou, o mundo não tinha mais
motivos para pôr suas câmeras sobre nós, e o dito gigante, que havia
“acordado”, voltou à boa e velha letargia de outrora.
Nem parece que se passaram dois meses desde que os jovens do país
realizaram aquela flash-mob épica e tomaram as ruas do país, clamando
por clichês e lugares comuns como melhoras na saúde, na educação, no transporte
público, combate à ladroagem, enfim, tudo ao mesmo tempo e agora. Será que já
limparam as marcas de tênis do teto do Congresso? O fator mais importante dos
primeiros manifestos foi a espontaneidade. O povo foi às ruas simplesmente
porque queria dar seu grito, e apesar de quase farsas como o Movimento Passe
Livre, não houve nenhuma convocação oficial.
Depois daquelas loucas duas semanas, qualquer tentativa de mobilização
ficou com cara de algo premeditado e guiado, como se os manifestantes
precisassem bater cartão antes de marchar. Por ter sido livre e espontâneo, as
marchas originais não tiveram nenhum líder ou ponto de referência- tirando, é
claro, o Passe Livre, que assim que conseguiu o que queria, anunciou
oficialmente que tiraria o corpo fora das ruas. E assim, abriu espaço para que
facções anárquicas e os vândalos tomassem conta das manifestações.
Insatisfeitos em apenas pedir a saída de governantes, esses
manifestantes anarquistas querem arrancá-los de onde estiverem no muque e no
dente. Há semanas tem um monte de gente acampada na porta do apartamento de
Sérgio Cabral no Rio de Janeiro, que, apesar de estar fazendo uma administração
satisfatória do estado, andou tendo uns surtos de soberba e irritando seus
compatriotas. Apesar de nós, pessoas de bem, termos razão em cobrar maior
vergonha na cara dos que mandam no país, são os anarquistas brucutus quem mais
chamam atenção da mídia, invadindo prefeituras, prédios do governo,
esculachando estabelecimentos comerciais e tacando pedra na polícia. A revista
Veja chegou ao ponto de fazer uma reportagem de capa 99% inventada sobre o
movimento Black Bloc, que sequer se considera um movimento. Assim como fizeram
no início das manifestações, tentaram elevar uma jovem mascarada ao status de
“simbolo do movimento”.
Pior que esses vândalos, só quem conversa sobre política na internet. Os
grandes mantras a unir flamenguistas e vascaínos nos grandes portais e redes
sociais continuam sendo FORA PT e FORA DILMA. E ai daquele que tentar cometer a
audácia de defender o partido. Seu destino é pior que a malhação de Judas!
Agora me preocupo com a situação política do país. Pois quando o diálogo entre
mentalidades opostas torna-se impossível, eis a porteira aberta para o
ressurgimento do totalitarismo, de regimes absolutistas.
Basta tomar nota de quantas vezes se lê MILITARES DE VOLTA nos
comentários no site do Terra. Só ele consegue ser um lugar pior para se
discutir política que o Facebook, simplesmente porque ali não há a
possibilidade de se discutir nada. Se você não odeia o PT, é inimigo público nº
1. Pura mentalidade de um lorde Sith. Sinceramente, galerinha. Em que vocês se
diferem de quem pretendem derrubar? Parecem tão ferinos quanto os poderosos de
Brasília, em sua voracidade em atacar Dilma e seus asseclas. Quem defende o
autoritarismo e a truculência do ministro Joca Barbosão no julgamento do
Mensalão não tá nem aí para a aplicação da lei ou para que a justiça seja
feita, quer apenas ver os políticos, independente de quem sejam, sangrando. Se
as propostas dessa gente entrassem em pauta no Congresso, acho que até Hitler
teria medo de vir ao Brasil...
São nesses momentos de fragilidade política e social que os déspotas
costumam mostrar a cara e substituir o que tá ruim por coisa muito pior. Podem
discordar de mim, mas creio que a única vez que a democracia possa ter sido
aplicada e desfrutada em sua plenitude foi à época de sua concepção, na Grécia
antiga. O ser humano parece nascer com uma propensão a aceitar ordens. Afinal,
é bem mais fácil colocar tudo no auto- pilot e não se preocupar com o
que está sendo posto diante de nós. Por séculos o país foi assim, com o povo
temendo o governo e não o contrário.
E, pelo menos por umas poucas semanas, essa situação parecia ter se
invertido. Aparentemente, o governo já se esqueceu de tudo o que aconteceu em
Junho e no início de Julho. Nem na idéia da “reforma política” se fala mais, e
mesmo com a aparente indiferença da presidente diante da população, ela
conseguiu subir 6% no gosto do povo. Continua com a metade da aprovação do
início do ano, mas mesmo assim subiu.
Por que ela não acorda pra vida e aproveita essa oportunidade única? Não
ignore a voz do povo, de SEU povo, presidenta! Em vez de propor uma reforma com
o que o governo ACHA que será benéfico à população, ouça o nosso clamor. Tome
nota de tudo o que os politizados vêm cobrando e leve à votação no congresso.
Se possível, use nossos pedidos para redigir uma nova Constituição! Faça com
que recuperemos nossa confiança em quem sempre pisou na gente! Afinal, já que
político eleito só pensa em se reeleger, que pelo menos faça por merecer nossa
confiança novamente!
Cara, até que pra quem começou um artigo falando em “flatulência
verborrágica”, não rendo lá muitas homenagens...
*Designer e escritor. Sites:
HTTP://www.facebook.com/fernandoyanmar.narciso
http://cyberyanmar.deviantart.com
HTTP://www.facebook.com/terradeexcluidos
http://cyberyanmar.deviantart.com
HTTP://www.facebook.com/terradeexcluidos
Pairou entre o engraçado e o sério e tive de concordar com boa parte de suas argumentações.
ResponderExcluirMuito bem Fernando! Nada como um toque de humor para falar de coisas sérias e que nos oprimem. Somos oprimidos sim, queiramos ou não. Destaco: "Faça com que recuperemos nossa confiança em quem sempre pisou na gente!"
ResponderExcluirE olha que o que tem de "flatulência verborrágica" nesta politicagem, peidando pela boca (nota minha kkkk). A popularidade da presidenta caiu vários degraus e subiu um pouquinho, pois é.
Outro destaque que considero relevante: "O ser humano parece nascer com uma propensão a aceitar ordens. Afinal, é bem mais fácil colocar tudo no auto- pilot e não se preocupar com o que está sendo posto diante de nós. Por séculos o país foi assim, com o povo temendo o governo e não o contrário."
E continua tudo "como antes no quartel de Abrantes". Só nos resta aguardar, sem muitas esperanças...
Abraço!