A vida a sangue frio, o futebol como ato político
* Por Anna Lee
Ainda a Copa.
Arrisco-me novamente no assunto
que, no momento, é de todos, mesmo daqueles que não têm qualquer conhecimento
sobre futebol. O meu caso.
Pior. Insisto em evidenciar minha
incapacidade de fazer poesia. Um leitor me advertiu sobre o texto da semana
passada que tratava do futebol como meio de afirmação da identidade de uma
nação, do Brasil especificamente. “Tá faltando poesia aqui”, disse-me ele.
Ponderei que jamais me propus a
fazer poesia neste espaço e nem em qualquer outro, já que não sou poetisa,
sequer pretendo me tornar uma, pelo simples fato de não conseguir ver poesia no
mundo e, principalmente, por não ter competência para extrair poemas do lado
desagradável da vida, de sua crueldade. A cada dia, um dia após o outro,
experimento a vida a sangue frio. É disso que tiro meus escritos, respondi ao
leitor, me desculpando por tê-lo desapontado e aconselhando-o a não me ler
mais.
Estou eu aqui outra vez falando
de Copa do Mundo sem poesia nenhuma. É inevitável. Sinto-me arrastada pelo
turbilhão futebolístico.
Isso se dá, sobretudo em dia de
jogo do Brasil. Aos primeiros raios do sol, uma brisa, contrariando a natureza
refrescante das brisas, sopra um bafo quente. Prenúncio de que muito mais está
por vir. Uma brisa que tem como futuro ser vento veloz, cada vez mais veloz,
capaz de levantar poeira, transformar-se em vendaval e arrastar quem encontrar
pela frente, bastando para isso o sujeito ser brasileiro.
Nestas horas, patriotismo não é
uma questão que se coloca. Qualquer um é arrastado e pronto. Sem possibilidade
de escolha, todos são levados pela onda de vento gigantesca que não é apenas
quente como a brisa matinal que lhe deu origem. Fervilha e se faz rascunho do
furacão, do auge que é atingido quando a bola bate no fundo da rede do
adversário e o Galvão Bueno – então, o verdadeiro presidente do Brasil, eleito
pelo monopólio de transmissão da Rede Globo – grita: “é do Brasiiiiiillllll!”.
Posso, por isso, entender que o filósofo
alemão Peter Sloterdijk tenha ido às páginas de O Globo dizer que o futebol mudou definitivamente a Alemanha. Que,
antes, sérios e constrangidos pelo passado nazista, os alemães, agora,
redescobriram o orgulho em festas que tomam as ruas em dias de jogos da
seleção.
Por outro lado, não posso, por
isso, entender quando Sloterdijk diz: “O que vemos na Alemanha não é
nacionalismo, mas patriotismo de lazer. O uso da bandeira não é político. É um
símbolo da alegria do futebol”.
É certo que o termo “nacionalismo”
carrega um peso – principalmente ao se tratar de Alemanha – na sua significação
de “preferência pelo que é próprio da nação a que se pertence”. Mais ainda quando referido como “exaltação
das características e valores tradicionais, à qual em geral se associam a
xenofobia e/ou racismo, além de uma vontade de isolamento econômico e cultural,
como doutrina que subordina todos os problemas de política interna e externa ao
desenvolvimento, à dominação hegemônica da nação”.
Também
é certo que o termo “patriotismo” usado como apenas “devoção à pátria”, ainda
mais acoplado ao adjetivo “lazer”, cabe melhor em tempos de Copa do Mundo.
De qualquer forma, há que se
considerar que os dois termos, nacionalismo e patriotismo, estão vinculados. O
que é o nacionalismo senão o patriotismo levado às últimas conseqüências?
Por isso não dá para dizer que a
agitação de bandeiras alemãs em festas que tomam as ruas em dias de jogos da
seleção não seja um ato político. E isso vale para qualquer outra nação.
O uso da bandeira é sempre
político. O uso de quaisquer símbolos nacionais é sempre político. Não fosse
assim a primeira estrofe do hino alemão que falava na “Deutschland, Deutschland
über alles” (“Alemanha, Alemanha acima de tudo”), não teria sido suprimida.
Foi suprimida porque a carga
política do passado nazista lhe é inerente. E porque, numa hora de simples
“patriotismo de lazer” pode originar um vento veloz, um vendaval, um furacão
que, ao invés de levar a bola ao fundo da rede do adversário, arraste os alemães
– incluindo os não patriotas – a um passado que deve permanecer como tal, senão
esquecido, pelo menos num outro tempo bem distante do hoje.
*Jornalista, mestranda em Literatura
Brasileira, autora, com Carlos Heitor Cony, de "O Beijo da
Morte"/Objetiva, ganhador
do Prêmio Jabuti/2004, entre outros livros. Colunista da Flash, trabalhou na
Folha de S. Paulo e nas revistas Quem/Ed.Globo e Manchete.
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