A maturação da vida
* Por Clóvis Campêlo
Caros amigos, para que serve a vida a não ser para ser vivida? A
pergunta, muito antes de ser poética, é existencial. Como diria aquela velha
compositora biriteira, só nos resta viver. E a vida, para ser bem vivida, deve
ser, acima de tudo, satisfatória. Ninguém vive bem alimentando frustrações ou
adiando realizações.
No entanto, diz o bom senso que projetos de vida mirabolantes sempre
tendem ao fracasso. Assim, como caldo de galinha e cautela nunca fizeram mal a
ninguém, é sempre bom não quer dar um passo maior do que as pernas podem dar.
Reconhecer as suas potencialidade e limitações pode ser um bom começo. A isso
geralmente dão o nome de maturidade e, via de regra, só nos chega quando já
estamos em adiantado estado de vida.
À juventude, aliás, dá-se sempre o direito de achar que o mundo é
simples e que as soluções dos seus problemas também passam pelo viés da
simplicidade.
Quem vai querer entender, por exemplo, os intrincados mundos da ciência,
dos negócios e das pesquisas? Para que se gastar tanto dinheiro com isso em vez
de matar a fome e as doenças do chamado Terceiro Mundo? Eu mesmo, confesso, até
hoje, mesmo em adiantado estado de vida, ainda não consegui entender, imaturo
que sou.
Afinal, estamos todos no mesmo barco ou não? Somos irmãos, todos filhos
do mesmo pai, ou alguns pagam por crimes que nunca cometeram ou nem sequer
chegaram a imaginar?
Como de boa vontade o inferno sempre está cheio, fico a imaginar que
esse estado de coisas é filho da esperteza de alguns, do convencimento da
burrice de outros e da libertação conceitual de outros poucos abnegados e
abdicados seres. O preço da liberdade é a eterna irrelevância.
De uma coisa, porém, eu tenho certeza: nenhuma das gigantescas
estruturas criadas pelo Homem para dominar o mundo e os seus habitantes mais
frágeis são capazes de se sustentarem por si próprias. São estruturas
artificiais, estáticas, vampirescas e servem apenas para confundir e
enfraquecer ainda mais as estruturas mentais dos homínculos dominados e
escravizados. Um dia, meus filhos, nada disso será teu. Guarda portanto as tuas
energias para o que realmente lhes seja dela merecedor. Não existe segurança
alguma em nada, mas o prazer sempre estará a disposição de todos os que
renegarem as tramas diabólicas do poder constituído e descobrirem o prazer da
volta ao equilíbrio edênico do universo verdadeiro e paralelo.
Tudo é aqui e agora. Nada para o amanhã inexistente ou para um futuro de
falsas premissas e inviável pela própria natureza. Os labirintos existem para
os incautos. A infelicidade também.
*
Poeta, jornalista e radialista
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