Óvulos penosos. Está servido?
* Por
Marcelo Sguassábia
Os veganos estão certos. Estão certíssimos. Não só pela determinação de
não ingerir cadáveres de animais, mas também por, coerentemente, se recusarem a
consumir os derivados deles. Especialmente o ovo, o mais nojento e abominável
desses subprodutos.
Que não se conteste o valor nutricional do dito cujo, o que o coloca
entre os alimentos mais completos que existem. Sem falar do sabor, que quando
frito é, de fato, uma iguaria. Basta ele e um pouco de arroz branco, e teremos
um dos mais estonteantes manjares já concebidos pela espécie humana.
O problema é quando você se põe a pensar na natureza daquilo que está
comendo. E aí vem à mente alguns fatos e imagens não propriamente abridores de
apetite – como o órgão excretor do produto, a cloaca, e os não raros ovos com
suas cascas saindo de fábrica manchadas de sangue. Uma vez coletados,
higienizados e enfileiradinhos em suas assépticas embalagens de supermercado,
não revelam à dona de casa a suja e dura crueza de sua gestação. Reflita,
analise, leve o assunto ao debate doméstico e em sã consciência não admitirá
mais um único ovo em seu cardápio - nem mesmo aquela pinceladinha discreta em
cima da empada.
Ovo é óvulo, o maior do reino animal. Gosmento e quase sempre
mal-cheiroso, quando in natura, permanece microscopicamente
alojado no ovário da galinha desde o nascimento do bicho, esperando na fila pra
ser posto pra fora.
Sim, a aparente delícia é de revirar o estômago. Inverta a situação e
compreenderá um pouco melhor o absurdo: imagine uma galinha ciscando um
absorvente feminino. Usado, evidentemente. Não seria exatamente esse o
comportamento dos comedores de ovos? Considerando-se a ínfima inteligência da
galinha, é até admissível o despropósito de vê-la degustando umCarefree
de procedência ignorada. Mas e nós, animais racionais, que justificativa
podemos dar ao ato bárbaro de sentar à mesa e mandar um zoiudão para o bucho?
Só que é preciso determinação para levar a abstinência adiante: nove
entre dez receitas doces ou salgadas levam ovos - inteiros ou só as gemas. Por
que continuam assim tão indispensáveis, esses pintinhos que não vingaram, nas
caçarolas, frigideiras e batedeiras de bolo? Como é que a tecnologia ainda não
conseguiu providenciar um substituto sintético à altura, com as mesmas
propriedades de liga, que dão ponto às receitas das tias velhas? Ou pelo menos
encontrando uma alternativa no reino vegetal, capaz de acabar de vez com a
primazia gineco-galinácea no mundo maravilhoso da culinária.
Por outro lado, se não fossem aproveitados pelo homem em sua dieta,
seria necessário inventar o que fazer com eles, já que uma única galinha põe em
média 265 ovos ao ano. Com expectativa de vida produtiva de dois anos em
ambiente de granja, vamos arredondar para 500 peças o portfólio penoso ao longo
da existência. Isso a galinha confinada, pois a de fundo de quintal chega fácil
aos 15 anos. Com a palavra, os veganos...
* Marcelo Sguassábia é
redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Ovo frito na manteiga é mais que iguaria. É celestial. Quem se importa de ser um óvulo? Quanto ao colesterol, aí já é uma outra história. Eu não como ovo há quase 12 anos. Boa argumentação, Marcelo e veganos.
ResponderExcluir