Mania de pesquisar
origens
A tentativa de conhecer
a origem das coisas sempre me fascinou, desde quando eu era jovem, moço curioso
e inquiridor, sempre a fazer perguntas a quem achasse que pudesse me
esclarecer. Essa insaciável curiosidade levou-me a tomar gosto pela pesquisa, a
esquadrinhar velhos e empoeirados alfarrábios, a aborrecer intelectuais com
solicitações de entrevistas e a remexer documentos antigos, sempre que podia
ter acesso a eles, entre outras iniciativas. Pensam que, com a idade e com os
compromissos e responsabilidades que assumi, perdi esse gosto? Não, claro que
não.
Tornei-me, isso sim,
metódico, racionalizando meus esforços e restringindo o foco dos meus
interesses. Decidi pesquisar o que se refere às artes, a todas elas, transformando
essa atividade em “hobby”. Não se trata de nada prático. Isso não me dá
dinheiro e sequer prestígio, mas me confere algo que considero mais precioso:
satisfação intelectual. O que para muitos dos meus amigos – e principalmente
familiares – é imensa perda de tempo, para mim constitui-se em uma espécie de
lazer. Claro que não me dedico a isso em tempo integral. Nem poderia. Se o
fizesse, seria, no mínimo, irresponsável. Ademais, não seria hobby e muito
menos lazer, mas ocupação profissional.
Nem todas – diria que a
maioria – das minhas pesquisas resultaram ou resultam em sucesso. Na maioria
das vezes, dou com os burros na água e não consigo esclarecer o que pretendia.
Ainda assim, “no meio do caminho”, aprendo, por vias transversas, coisas que
sequer me passavam pela cabeça antes de me lançar à empreitada, o que não deixa
de ser um lucro, mesmo que ínfimo. Volta e meia sou questionado por amigos (os
que sabem dessa minha idiossincrasia ou mania como queiram) sobre a origem de
coisas como a poesia, o soneto, a dança e vai por aí afora. E lá vou eu revirar
livros e mais livros antigos, ou em alguma biblioteca pública, ou na minha, que
é bastante variada e volumosa, mas infelizmente caótica.
Às vezes (quase sempre)
fracasso nessas pesquisas, também sem muita ordem, posto que persistentes. Mas
também tenho conseguido sucesso com alguns temas e os resultados acabam
servindo para alguma coisa prática – em geral para a redação de algum ensaio –
e não se limita, portanto, a meramente vencer um desafio ou satisfazer alguma
curiosidade específica.
Um dos casos, em que
fui bem sucedido, refere-se à origem da ópera, gênero que não é dos mais
populares ou difundidos e que mesmo os que o apreciam nem sempre o compreendem
bem. Da minha parte, gosto desse tipo de arte. Ele reúne tudo o que aprecio: música
instrumental, canto, dramaticidade, literatura (no caso, os textos dos libretos
que conferem lógica e ordem ao respectivo enredo), entre tantas outras coisas
(como cenografia, figurinos, iluminação etc.etc.etc.). Para apreciar ópera,
presumo, é indispensável certa “educação musical”. É preciso desenvolver gosto
pela música erudita e, sobretudo, entender o que está sendo apresentado. Nem
todos, claro, têm esse privilégio. E não por falta de vontade, mas, na maioria
dos casos, por ausência de oportunidades.
Minhas pesquisas sobre
a origem da ópera tiveram como pretexto um “desafio” de um amigo, feito há 27
anos (em 1986). Naquela ocasião, a célebre criação “O Guarani”, de Carlos Gomes
(cuja introdução abre, diariamente, o programa oficial do governo, “A voz do
Brasil”) foi programada para ser apresentada no Teatro Castro Mendes de
Campinas (aquele antigo, antes da reforma). A apresentação era de caráter
comemorativo. Marcaria o sesquicentenário de nascimento, além do 90°
aniversário de morte, do ilustre autor campineiro.
A parte orquestrada
coube à excelente Orquestra Sinfônica de Campinas, então regida pelo maestro
Benito Juarez. Os solos cantados foram confiados a cantores convidados. Durante
a apresentação, magnífica e memorável, fui explicando baixinho ao amigo o
desenvolvimento do enredo, baseado no romance de mesmo nome de José de Alencar.
Meu interlocutor ficou fascinado (ou pelo menos me pareceu assim). À saída do
teatro, me “bombardeou”: “Pedrão, você que é sabe tudo seria capaz de me
explicar como e onde nasceu a ópera?” Bem, o “sabe tuido” foi, óbvio, um
exagero, se não mera provocação. Na hora, fiquei “embatucado”. Para não dar o
braço a torcer, pedi-lhe tempo para satisfazer sua curiosidade.
E lá fui eu pesquisar
velhos livros em busca de resposta. Pesquisei, pesquisei, pesquisei, até que
encontrei pelo menos uma versão a propósito. Se é exata ou não, não posso
jurar. A resposta ao desafio do amigo dei-a por escrito, em 25 de outubro de 1986
(um sábado), mas não somente a ele, como a todos meus leitores do jornal “Correio
Popular” de Campinas, em cuja redação eu trabalhava como editor. Foi através de
um ensaio, cujos trechos mais expressivos partilharei, nos próximos dias, com
prazer, com você, caríssimo (e paciente) leitor deste espaço. Ou por acaso você
não gostaria de saber como e onde surgiu a ópera, mesmo que não aprecie (e até
deteste) o gênero? Será que sua curiosidade não chega a tanto?!!!
Boa leitura.
O Editor
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk.
Também sou curiosa, mas me faltou berço para gostar de algo tão sofisticado quanto a ópera. Outro impedimento é não saber italiano, língua oficial das óperas. Mas quero saber-lhe e origem.
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