Malditas geladeiras!
* Por
Fernando Yanmar Narciso
Em 2008, Steven Spielberg, George Lucas e Harrison Ford uniram forças
novamente para dar vida a uma das sequências mais desnecessárias e infames da
história de Hollywood: Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal.
Apesar da tentativa de trazer de volta os velhos tempos, os fãs não perdoaram o
excesso de confiança na computação gráfica- coisa que a série nunca teve ou
precisou, o roteiro que constantemente desafiava a barreira entre a forçada de
barra e a insanidade e, especialmente, não perdoaram uma cena que, de tão
absurda, foi imortalizada nos anais da cultura popular como o exato momento em
que essa barreira foi rompida.
Em tal cena, Jones se encontrava encurralado por bandidos num sítio de
simulação de ataques nucleares, completo com manequins e uma cidade
cenográfica. Desesperado e contando com poucos segundos para se safar, o herói
tem a ideia de jerico de se esconder dentro de uma geladeira para se proteger
da radiação. E assim que a bomba é detonada e o sítio é evaporado junto com os
bandidos, lá vem a geladeira salvadora, voando por cima da explosão e quicando
violentamente no chão várias vezes! Se o filme tivesse acabado ali, Jones teria
morrido como um herói. Mas para a incredulidade geral da nação, Indy, vivinho
da silva e só levemente chamuscado, rola para fora de seu escudo gélido e
assiste de longe ao enorme cogumelo atômico subindo aos céus. Essa cena causou
tanta revolta de fãs e cientistas que, em sua homenagem, foi cunhada a
expressão “explodindo a geladeira”, que passou a simbolizar o momento em que um
filme ou programa de TV, desesperado por novidades, resolve dar uma banana pra
tudo o que vinha sendo construído até então e lança uma maluquice sem tamanho,
só pra ver se a audiência engole. Se ao menos Gloria Perez tivesse conhecimento
de tal expressão...
Já faz quase um ano que a petárdica Avenida Plasil terminou, os
rábicos fãs daquela novela já se acalmaram, mesmo que ainda não dê para deixar
de compará-la à agora finada- Salve Jorge. O sucesso da trama de JEC foi
tão grande que até eu teria problemas para assumir seu lugar. Mas, sejamos
justos, pessoal. Apesar da constante ambientação de filme de terror, de ter
duas personagens principais incríveis se engalfinhando por sete meses e da
inesquecível e imatura Carminha, o que aprendemos de bom assistindo aquilo?
Qual foi o grande acontecimento que amarrou todos os núcleos da história?
Basicamente, só ocorreu um plano retardado de autossequestro da vilã, para
tentar extorquir ainda mais o Tufão, e a apavorante morte de Max, eterno comparsa
de Carminha, e que no final era o verdadeiro cara mau da dupla.
Tirando isso, Avenida foi o Seinfeld das novelas.
Essencialmente, não aconteceu nada de mais em toda sua duração, tirando a
vingancinha de Nina contra sua estereotipadíssima madrasta, os demais
personagens ficavam simplesmente orbitando ao redor da mansão. E devoramos
aquilo como urubus atacando carniça. No último capítulo teve até gente nos
bares se ajoelhando e dando as mãos como nos Alcoólicos Anônimos! Deu no Globo
Repórter Especial!
Por outro lado, Salve Jorge foi um fracasso monumental de audiência
mesmo tendo inovações, bons conceitos e o sempre presente marketing social de
Gloria Perez, alertando as pessoas sobre o tráfico humano. Entretanto, a chuva
de geladeiras explodindo não soube a hora de parar. Não que Avenida também
não tenha tido seus momentos risíveis de “explosão de geladeira”, mas os
devaneios da novela rival foram tantos e tão persistentes que o artigo renderia
umas 30 páginas se me dedicasse exclusivamente a eles, então vou me limitar só
aos problemas que, creio, foram consenso geral.
Em primeiro lugar, o casal protagonista. Uma regra que nem mesmo a
mestra Janete Clair ousaria subverter é não colocar dois personagens bondosos
para disputar uma paixão. Precisa sempre ter um amado gente boa e um amado
sacana para gerar a torcida, e esse clichê parece ter caído em desuso
ultimamente. O casal “Mo-Théo” foi insosso porque, tirando a história dela ser
traficada e prostituída, ela não precisou disputá-lo com ninguém e nem vice-versa.
Desde o início a gente sabia que a coitada da Érica não ia dar nem pra saída
contra Morena, era só a eterna namoradinha-estepe do garanhão. Quantos de nós
não torcíamos para que Morena conhecesse um par perfeito de verdade na Turquia
e esquecesse o príncipe falsificado? Claro que o fato de Rodrigo Lombardi ser
mais canastrão que o Stallone contribuía um bocado com o repúdio ao personagem.
E a história de Livia Marini, a grande vilã e rainha da seringada, se apaixonar
pelo mocinho e fazer cara de derrame toda vez que ele passava? ÓIA A GELADEIRA!
Ver os dois na cama foi como ver o Coringa transando com o Batman.
E as oportunidades que Gloria Perez insistentemente desperdiçou em toda
a trama? Tenho certeza que a frase mais berrada no Brasil na última sexta-feira
foi ATIRA LOGO! Nem em faroestes da década de 40 já vi tanta gente apontando
armas umas para as outras sem puxar o gatilho. Já era o último capítulo da
novela, até que valeria a pena matar um herói ou um vilão. Já pensaram se
Morena tivesse estourado os miolos de Lívia Marini na cena final, ou o
contrário? Estaríamos falando do último capítulo até hoje. Infelizmente, Tia
Glorinha não é nenhum Hitchcock...
Pelo menos tivemos direito a um ótimo momento onde Morena, aprendiz de
Capitão Nascimento, encurralou Wanda tentando escapar por um bueiro à la
Tartaruga Ninja e a rendeu atirando nos pés dela para fazê-la sapatear, tal
qual Lucky Luke fazia com os Daltons. Cena hilária e satisfatória, sem deixar
de ser embaraçosa. Tia Glorinha pode até ter explodido várias geladeiras esse
ano, mas assistir a uma geladeira sendo alvejada por uma explosão nuclear e
voando para fora da tela com certeza seria mais emocionante que ver Morena e
PasThéo se beijando ao som do Rei Roberto.
*Designer e escritor. Sites: HTTP://terradeexcluidos.blogspot.com.br - HTTP://cyberyanmar.deviantart.com e HTTP://www.facebook.com/fernandoyanmar
Crítica irónica e por isso mesmo engraçada do capítulo final de Salve Jorge. A novela se salvou? Parece que sim, e cá estamos nós nos divertindo com sua análise.
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