sexta-feira, 3 de maio de 2013


Choros, violas e violões (2)

* Por Leonardo Dantas Silva

O violão é descrito pelos vários dicionaristas como “instrumento cordofone, que soa por dedilhado, maior do que a viola, com caixa de ressonância em forma cintada do algarismo oito, da qual sai uma haste de madeira chamada de braço”. No braço, ou espelho, estão fixados 19 trastes (responsáveis pela formação do mesmo número de casas), sobre os quais são esticadas seis cordas (fabricadas em náilon ou metal), sendo três mais grossas (capeadas de metal fino), chamadas de bordões, e três mais finas, as primas, amarradas em igual número de tarraxas e afinadas por cravelhas mecânicas, alojadas na extremidade do braço (cabeça). Um cavalete de madeira fixa as cordas ao tampo harmônico, de fundo plano e uma abertura circular (boca).

Esclarece Suetônio Soares Valença [1], sobre o verdadeiro surgimento da Música Popular Brasileira, naquele início de século XX:

Na verdade, ambos – choro e maxixe – são a resultante final do abrasileiramento da valsa, shottisch, mazurca, quadrilha e sobretudo polca, sendo o choro a maneira brasileira de tocar essas danças-músicas e o maxixe o modo de dançá-las. Criações de músicos populares brasileiros, impregnadas do substantivo de origem negra, o choro encontrou no maxixe o seu paralelo no campo da dança maxixe, num segundo momento, gênero musical. [...] À maneira “chorada”, lânguida de os músicos populares, moradores em sua maioria na Cidade Nova – trecho compreendido hoje entre a estação Central do Brasil e a Praça da Bandeira [Rio de Janeiro] –, interpretavam músicas de danças européias, sobretudo a polca, fez nascer, por volta de 1880, o choro.

Num primeiro momento, modo de tocar, e, tempos depois, gênero de música, o choro teve inicialmente no violão e no cavaquinho seus instrumentos de execução. A eles se juntaria a flauta, constituindo-se assim a formação básica do choro carioca.

Estavam, pois, fixadas as bases dos conjuntos de choro, surgidas no final da segunda metade do século XIX, cabendo ao flautista Joaquim Antônio da Silva Calado Júnior (1848-1880) a primazia de ter sido o primeiro a fazer uso de tal formação: flauta, cavaquinho e violão. Logo, outros conjuntos com a mesma formação foram surgindo no meio da gente modesta da cidade do Rio de Janeiro, habitantes da área denominada de Cidade Nova, já referida anteriormente.

Calado Júnior, que nos deixou o antológico Choro de Calado, veio a ser sucedido por outro virtuose da flauta, Patápio Silva (1881-1907), agraciado com medalha de ouro do Instituto Nacional de Música (1903), este último, com algumas de suas execuções preservadas em disco pela Casa Edson do Rio de Janeiro.


[1] VALENÇA, Suetônio Soares.“Polca, polca-lundu, choro, maxixe”, in LOPES, Antônio Herculano (Org.). Entre Europa e África: a invenção do carioca. Op. cit. p. 66.


          * Jornalista e escritor do Recife/PE

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