Xeque
* Por
Marcelo Sguassábia
Numa partida de xadrez, qualquer deslize pode ser fatal. E os possíveis
deslizes, no caso, estão diretamente relacionados à qualidade do feltro colado
sob cada uma das peças do jogo. É sobre essa questão de complexidade extrema
que o autor resenhado debruçou-se ao longo de dois anos, numa defesa de tese
que chega agora em forma de livro ao mercado editorial brasileiro.
Os primeiros capítulos são dedicados ao enunciado teórico no qual o
autor sustenta o fato de que, a partir da rugosidade da superfície do
tabuleiro, podemos estabelecer a espessura ideal para o feltro das peças, a fim
de que se evite o indesejado deslizamento. A equação, exaustivamente exposta em
todas as suas variáveis, põe por terra os fundamentos até então cientificamente
aceitos de que a relação feltro/tabuleiro era meramente de ordem
estético-funcional, não interferindo de maneira determinante no resultado do
jogo.
Ora, sendo as pelejas enxadristas marcadas pela habilidade dos jogadores
em manejar raciocínio e estratégia, tornam-se inócuos estes esforços se os
lances meticulosamente estudados não encontrarem amparo suficiente para que se
mantenham firmes sobre o campo de ação onde interagem os agentes, ou seja, o
tabuleiro.
Outros fatores interferentes, segundo o autor, podem ainda comprometer o
já naturalmente instável embate das forças que se rivalizam. Dentre elas,
destaca-se a influência do vento sobre o posicionamento correto das peças nas
partidas ao ar livre - especialmente os peões, quase sempre de menor peso em
função de suas dimensões reduzidas, e portanto mais vulneráveis. Há ainda
outras constatadas, mesmo que não preponderantes para efeito estatístico de
suas ocorrências: movimentações de terra causadas por terremotos, trepidação
pela passagem de comboios nas proximidades, esbarrões de cotovelos durante o
processo de abanamento de moscas e até mesmo espirros dos players, quando em
velocidade superior a 55 km/h.
Dentre as diversas soluções levantadas de prevenção aos deslizes,
algumas destacam-se pela originalidade de abordagem. Como esta, exposta no
capitulo 8: “Em toda e qualquer jogada, deve-se preferencialmente remover a
peça de sua posição original, saltar sobre as demais e reposicioná-la sobre a
nova casa, impedindo assim a fricção do feltro sobre o tabuleiro, o desgaste
prematuro de ambas as superfícies e suas desastrosas consequências.”
Inúmeras partidas, algumas delas valendo título mundial, já foram
brutalmente interrompidas pela repentino desmonte do jogo, após horas de
certame. O autor recorda, inclusive, o emblemático episódio envolvendo os
russos Sharopov e Strochnikov, quando este último, ao ajeitar-se em sua
cadeira, deu com o joelho direito na quina da mesa e não deixou pedra sobre
pedra, invalidando a disputa.
Avesso ao excesso de academicismos, o que seria justificável pela aridez
teórica do assunto, o autor consegue a proeza de conduzir o leigo em sua
argumentação de forma lúdica e prazerosa, fazendo com que as 573 páginas mais
pareçam um romance que um tratado científico.
& Marcelo
Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).
Com um pouco mais poderia ser uma página para cada um dos dias de dois anos. É muito detalhamento desse tão importante assunto. Porém, o mais surpreendente é a capacidade do autor - do resumão, e não do tratado-, contar a história em uma lauda apenas. Coisas de publicitário e seu poder de síntese.
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