A dama dos cachorros
* Por Marco
Albertim
O dia anunciou-se tão vivo de luz que se refletiu nos olhos dos
cachorros, de modo a juntar nas quatro pupilas, a brancura sedosa da areia na
beira-mar, o verde desbotado das folhas dos ipês, bem como a densidade de húmus
desprendida da terra recuada da areia.
Sem falar na mansidão de ritmo
dos barcos sobre as águas quase paradas; a cor de madeira nua, afogueada,
esmaecida pelo embebimento, dir-se-ia ser a mesma dos olhos do fox terrier; do
fox e da cadela vira-lata de pelo marrom, sem cobrir as mamas pretas, estriadas
feito castanhas murchas.
O fox, com um círculo marrom em
cada uma das laterais brancas, da altura dos quase quarenta centímetros sobre
as pernas esticadas, foi o primeiro a deixar o focinho a ser acarinhado por
Sofia Russell. A dona abaixou-se puxando para cima o vestido comprido da mesma
cor dos círculos do fox. Viu que a cor da malha de algodão perfilou-se sem
queixas com o negrume dos olhos do fox, o marrom lustroso na madeira dos
barcos; e, de quebra, com os pelos crespos amansados pelo xampu, da cadela.
- Dino está com cheiro de
cachorro de rua - disse Raquel, depois de sentir o húmus vindo da mata de ipês
à direita da residência.
No extremo da mata, a quatro
quilômetros dali, a foz do rio entre o mangue de um lado e de outro, com um
cheiro fluvial e sulfuroso, confundira o olfato de Raquel.
- Não fale assim com o seu
sobrinho! - reagiu Sofia Russell. - Não fale porque você ofende os costumes da
casa.
Sofia Russell, que ouvira em pé a
observação da irmã, abaixou-se logo em seguida para beijar as curvas sob os
olhos do fox terrier, para não deixar nele a suspeita de soltar na respiração o
fartum do esgoto nos fundos da casa, na rua; inda que das narinas do animal
deslizasse um corrimento fino.
Raquel riu. Logo foi acudida pela
chegada de Johny Play. O alemão há muito se livrara da rascância da língua
materna. Entronizara-se no distrito de pouco mais de cinco mil moradores, não
demorou a ser tratado como alcaide na feira, na padaria, no mercado público;
pela casa suntuosa, o trato melífluo a coelhos e aves de raça; sem falar no fox
terrier, na cadela adotada num orfanato de cães abandonados.
Beijou Sofia Russell nos lábios
fartos, não tão grossos quantos as patas da cadela; beijou-a sem esquecer o tratamento
que convém na frente de filhos mimados.
- Olá, mãe!
Os dois cães, ouvindo o estalido
do beijo do casal, alvoroçaram-se sobre as duas patas traseiras, enroscando-se
nas pernas de Johny Play e de Sofia Russell.
- Querido! Esqueci de trazer as
boinas dos meninos, para protegê-los do sol. Suba. Estão no meu quarto.
- Eu trouxe as duas.
Johny Play tirou do bolso de trás
da bermuda, um par de boinas brancas, semelhantes às de um bebê. Sofia Russell
beijou-o outra vez, e logo abaixou-se para, com um elástico frouxo, botar na
cabeça de cada um dos cães, sua boina. O fox e a cadela abaixaram a cabeça, sem
queixas e dando conta da familiaridade com os chapéus.
- Que fofinhos... - Sofia Russell
não perdeu a chance.
Já no carro, o fox terrier, como
de costume, instalou-se com as duas patas traseiras no banco de trás, as
dianteiras entre o banco de Sofia Russell e o de Johny Play. A cadela, sobre o
forro da mala, sem grunhidos de desconforto, deitou-se. Sofia Russell elogiou-a
com rasgos de elogio pela "boa educação", inda que, no fundo,
reprimindo a meiga porção de recomendações que tinha para cada um dos animais.
Raquel, sentada junto às patas
traseiras do fox terrier, observando tudo em silêncio. Não podia ser de outro
modo, visto que a irmã, no esforço de se mostrar mãe sem nunca ter parido um
filho, não interrompia a palração para, também ela, convencer-se de que era uma
mãe sem defeitos.
O barqueiro já estava esperando
por eles. Ao meio-dia do domingo, o leito do rio viu-se ocupado por outras
embarcações, todas com motor de popa. Nas margens de um lado e de outro,
barracas construídas sobre varas nos lados e no piso, e cobertas por palhas
secas de coqueiro, davam abrigo a mulheres eviscerando peixes, lavando roupas.
Noutras, famílias juntas num convescote pobre, entretendo-se com o cheiro
doentio da lama sob o piso, sorvendo a inhaca das vísceras dos peixes, e
convencendo-se de que só eles tinham a propriedade do frescor do rio.
Instalados sob a coberta do
barco, a família seguiu para o piquenique. Sequer se deram conta do prazer
telúrico na pouca balbúrdia dos ribeirinhos. Uma hora depois da partida, o
barco parou numa localidade conhecida como Prainha.
O barqueiro, sentado num tronco
estendido, tirou do embornal cajus e mangas. Raquel e Sofia Russell
acomodaram-se na beira do rio. Sobre a grama rala, estenderam a comida; as duas
de biquíni. Johny Play deixou a cadela com as duas e seguiu com o fox terrier,
mato adentro; conforme dissera, para amestrar o cão nas incursões. Demorou a
voltar. Sofia Russell impacientou-se, ordenou ao barqueiro que fosse à procura
do marido e do cão. Assim que saiu, o fox reapareceu sem o dono.
- Onde está seu pai!? - quis
saber a mulher.
O barqueiro, depois de vinte
minutos, reapareceu com um aviso de madeira há muito caído sobre a relva
desigual. Lavou-o no rio para Sofia Russell ler:
*Jornalista
e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de
Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi
ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção
Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A
convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de
Natal”. Tem três livros de contos e um romance.
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