Rudimentos do
pensamento kleiniano
A psicanalista
austríaca Melanie Klein é considerada uma espécie de “continuadora” de Sigmund
Freud, embora muitos vejam na teoria que criou uma espécie de “contestação” às idéias
dele. Entendo, todavia, que esse termo é inadequado. O que ela fez foi ampliar
os conceitos do mestre, em vez de contestar suas conclusões e, sobretudo,
emprestar dinamismo às suas principais propostas. O pensamento de ambos, no meu
entendimento de leigo na matéria, em vez de conflitar, complementa-se.
Por exemplo, Freud, ao
tratar do desenvolvimento de uma pessoa logo após o nascimento, propôs que este
se dá em três fases distintas: oral, anal e genital. Klein concorda com essa
divisão, mas em vez de afirmar que elas sejam separadas, individualizadas e que
ocorrem uma após a outra, constatou que elas são simultâneas. Ou seja, estão
presentes no bebê desde os três primeiros anos de vida e ao mesmo tempo. Ao se
comparar as teorias freudiana e kleiniana nota-se, nitidamente, que é o
dinamismo da segunda que a diferencia da primeira.
Melanie Klein introduziu na psicanálise
o conceito das “posições”. Ele é muito importante na sua escola.
Afinal, o psiquismo funciona a partir delas, e todos os demais desenvolvimentos
são invariavelmente baseados em seu funcionamento. E quais seriam estas
posições? São, conforme Klein propôs, a esquizoparanóide e a depressiva, que
começam no nascimento e terminam na morte. Todos os problemas emocionais, como
neuroses, esquizofrenias e depressão são analisados a partir dessas duas
posições. Por isso, em uma análise kleiniana, não se trata de trabalhar os
conteúdos reprimidos. É preciso “equacionar” as ansiedades depressivas e
ansiedades persecutórias. É necessário que o paciente perceba que o mundo não
funciona em preto e branco. Que é possível amar e odiar o mesmo objeto, sem
medo de destruí-lo. Em outras palavras, não adianta trabalhar o sintoma (neurose)
se não forem trabalhados os processos que levaram ao seu surgimento. E estes
são, reitero, as ansiedades persecutórias e as ansiedades depressivas.
Tentarei explicar, da forma
mais didática possível (portanto, sem tecnicismos) o cerne da teoria kleiniana.
Caso o leitor não entenda, a falha, óbvio, não é a de quem a criou, mas de quem
tentou explicá-la, no caso, eu. Para Melanie Klein, existe um mundo interno,
formado a partir das percepções do mundo externo, colorido com as ansiedades deste
último. Com isso os objetos, pessoas e situações adquirem cor especial. O seio
materno é, óbvio, o primeiro objeto de relação da criança com o mundo externo.
E ele é tanto percebido como bom (quando amamenta), quanto como mau, quando não
alimenta na hora em que a criança deseja. Mas é impossível satisfazer a todos
os desejos do bebê. Invariavelmente ele tem os dois registros desse mesmo seio,
um bom e um mau. Esse conceito também é muito importante no estudo da formação
de símbolos e desenvolvimento intelectual.
Outro aspecto dessa tese de
Klein é o de que os bebês desenvolvem, logo que nascem, dois sentimentos
básicos: amor e ódio. É como se a vida fosse um filme em branco e preto: ou se
ama, ou se odeia. É fácil, portanto, perceber que a criança ama o “seio bom” e
odeia o “mau”. O primeiro sacia sua fome e o segundo não o faz no momento em
que ela quer. O problema é que na phantasia do bebê, o “seio mau”, (objeto
interno), vai se vingar dela pelo ódio e destrutividade que lhe são
direcionados. Esse medo de vingança é chamado de ansiedade persecutória. Quando
nos defrontamos com algum perigo – como por exemplo, um assaltante armado ao
passearmos por um parque, à noite – nosso instinto nos impele à fuga ou à
reação para preservar nossa integridade física. Essa reação é chamada, em
psicanálise, de defesa. O conjunto de ansiedade persecutória e suas respectivas
defesas são chamados por Klein de “poisição esquizoparanóide”.
Ficou claro? Espero que sim.
Informo o leitor que, para tentar explicar esses conceitos didaticamente,
recorri à enciclopédia eletrônica Wikipédia, até para ordenar as ideias e não
me perder em verborragia inútil. Com o desenvolvimento, o bebê percebe que o
mesmo objeto que odeia (seio mau) é o que ama (o bom). Nota que os dois
registros fazem parte de uma mesma pessoa. E que esta é a mãe. Ao perceber
isso, passa a temer perder o seio bom, pois receia que seus ataques de ódio e
voracidade, ao considerá-lo mau, o tenham danificado ou até matado. Esse temor
da perda do objeto bom é chamado por Klein de “ansiedade depressiva”. E o
conjunto desta e de suas respectivas defesas do ego são chamados por ela de “posição
depressiva”. Ao leitor que desejar conhecer melhor as ideias dessa notável
psicanalista, recomendo que leia seus livros, mas que não se limite à leitura, contudo
os estude meticulosamente. Seu pensamento, a propósito, é fascinante.
Boa leitura.
O Editor.
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A minha mãe tinha essas noções da psicanálise. Nunca soube onde ela aprendeu, mas costumava falar sobre esses conceitos tratados aqui. Gostei muito de lê-los.
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