“Recuerdos de una vida”
* Por Mara Narciso
Sou petulante e corajosa. Vou, gosto e venho contar. Achei a notícia no
Blog Minas Livre, e decidi de imediato: dança flamenca no Centro Cultural? Eu
vou! Ao chegar, fila para entrar, mas todos com o ingresso na mão. Muita gente
conhecida, pois o que acontece de bom faz as mesmas pessoas saírem de casa. Ás
21 h uma das bailaoras – como são chamadas as bailarinas do flamenco - vem
anunciar que o espetáculo começa em cinco minutos. Celulares no silencioso,
muita gente quer filmar as cenas. Com luzes apagadas, a campainha anuncia que o
show vai começar.
Quando as cortinas se abrem vê-se que o local, acanhado e decadente é
pequeno para o que vai acontecer. Som e iluminação caprichados, cenário a
caráter em todos os detalhes, com vermelho predominante, com cadeiras ao fundo
do palco onde estão os cantores e o músico. Foi uma hora e meia de apresentação
na qual desfilaram cinco impecáveis mulheres em trajes e talento ao som de
músicas que, pela cor, andamento e harmonia contam uma vida, mesmo para quem
gostaria de uma legenda.
O vigor do sapateado, num trote que em alguns momentos lembram o tropel
de cavalos, mais o doce bailar das mãos, por onde passam castanholas cantantes
e leque dançante, tornam ainda mais admirável o que se passa naquele palco. A
performance da atriz principal a montes-clarense Elisa Pires Soares foi
notável e faria sucesso em qualquer teatro, e nós estávamos ali sendo brindados
com toda a emoção que o conjunto significava. Segundo o folder é “uma história
bailada ‘al compás Del flamenco’ que retrata de forma emocionante três momentos
de uma vida: alegria dos sonhos, a dor das perdas e a vitória da superação”.
A cantora Carol Romano é linda e de voz vibrante, além de Luiz
Sangiorgio e quem tocou foi Micael Pancrácio. Numa dança que só tem mulheres,
vê-se que elas se entendem pelo olhar e gestos, compartilham, dividem a dança e
os sentimentos, sendo generosas e solidárias. O rosto de cada uma delas vai ao
compasso da história com sorrisos, tensão, desespero, sofrimento, esperança e
retomada da alegria. A cor das vestes dá o tom do que se passa começando com
cores alegres, passando pelo preto e por fim o branco em cena. A iluminação
altera a cena dando um toque ora dramático, ora mágico, ora feliz.
Tudo escuro, som de velório, uma vela acesa, mulheres de preto, flores
mortas, e uma sineta que é um pilão metálico e seu socador. Imita o som de sino
chamando para a missa. É o clímax da apresentação. Acende-se a luz e se vê a
dor personificada numa mulher de luto, aquela que perdeu tudo, que se contorce de
dor, que se martiriza em cena. É muito sentimento derramado, muita carga
dramática na face da protagonista, que é uma excelente atriz e muito mais. Para
executar esse papel é preciso ser jovem, forte e com muita saúde. O sapateado
exige vigor físico de atleta, saber falar com o corpo e com as mãos e ser
delicada para dançar com graça. Outra cena para se guardar no cofre da memória.
Então surge a esperança na forma de um adereço de franjas vermelhas
sobre o peito. É a transição entre o luto e o renascer. Começa o baile final,
com todas de branco. O solo da arquiteta e designer Ana Pires com seu
xale foi monumental, num entendimento perfeito entre bailaora e adereço.
O público torce para que a mulher se recupere, e vença o inimigo que não
aparece em cena, apenas seus efeitos. Ela vence a adversidade. A comunicação é
total. Enfim, uma coisa que todos precisam ver, sentir e aplaudir: dança da Cia
Flamenca Pátio Espanhol de BH. Com ela se faz uma viagem mágica à Espanha, com
direito a grandes goles de prazer.
*Médica endocrinologista, jornalista profissional,
membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico,
ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”
Eu imagino a sua emoção Mara, qualquer evento alusivo a arte é belo, mas a dança tem um algo a mais, envolve comprometimento, mergulho
ResponderExcluiro sangue do bailarino fica no palco. Abraços Mara.
Como diz o ditado "fica sempre um pouco de perfume nas mãos de quem oferece rosas", assim como fica alegria em quem dança ou vê dançar. Muito gostoso! Obrigada, Núbia!
ExcluirNunca assisti a um espetáculo de flamenco - imagino que seja bastante interessante. De qualquer forma, seu texto nos reporta muito dessa emocionante experiência. Parabéns, Mara.
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