Flores e vinhetas da última flor
do Lácio
* Por Deonísio da Silva
Nossa língua
portuguesa foi concebida em célebre poema de Olavo Bilac como a “última flor do
Lácio, inculta e bela” e “ouro nativo”, além de “esplendor e sepultura”.
Palavras e
expressões consolidaram-se de tal modo em nossa língua que muitas delas servem
de vinhetas na imprensa, de que é exemplo o famoso verso “última flor do Lácio,
inculta e bela”.
As vinhetas
são assim chamadas porque os monges medievais enfeitavam seus escritos com desenhos
de folhas e de cachos de videiras. No latim, videira é vinea. No francês, filho do latim, vinea tornou-se vigne. E
a pequena vigne, vignette, tornou-se vinheta no português. As vinhetas, antes de
migrarem para a escrita, estavam em móveis e louças, onde, aliás, ainda
permanecem.
Os leitores,
repartidos, detestam ou veneram Olavo Bilac. Integro o segundo lote. Textos de
pouca ou nenhuma isenção ideológica lembram com surpreendente obsessão que o
conhecido escritor brasileiro inventou o livro didático e o serviço militar,
ambos obrigatórios, ainda que o primeiro apenas para os homens.
Mais cívicos,
outros lembram que é autor de nosso Hino à Bandeira. A Bíblia já avisou que o
justo sofre na boca dos ímpios. Mas os tempos mudam e quem hoje é ímpio, amanhã
pode ser considerado justo e vice-versa. De todo modo, os ímpios hodiernos,
quando referem Olavo Bilac, dão-no apenas como o autor do primeiro desastre de
automóvel no Brasil.
E eis um
caminho que se bifurca. Desastre veio do provençal antigo desastre, passando pelo francês désastre
e pelo italiano disastro. Em todas as
línguas citadas, designava originalmente desvio da rota do astro ou “contra os
astros”, dada a enorme influência da astrologia em tempos remotos. Os antigos
pensavam que as grandes desgraças e calamidades decorriam de desordens entre os
astros, impedidos momentaneamente de zelar pelas coisas terrenas. E não
recolhiam impostos para tais proteções. É, mas não vivemos no Céu. Vivemos na
Terra. E aqui há impostos e desastres. Não deixa, porém, de ser poética a
designação de desastre.
Uma
curiosidade marca o primeiro deles no Brasil, envolvendo dois escritores: o
poeta Olavo Bilac pediu emprestado o automóvel de José do Patrocínio e destruiu
o carro do célebre orador abolicionista numa batida antológica. Ora, o chofer
barbeiro – chofer passou a motorista – era poeta dos bons e seu nome completo
formava um dodecassílabo: Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac. Chama-se
dodecassílabo o verso de doze sílabas, também denominado alexandrino, em
homenagem ao poeta francês Alexandre du Bernay, autor de
Le Roman d'Alexandre, canção
francesa em forma de gesta, do século XII. Gestas eram poemas que celebravam
grandes feitos.
Voltemos à
“última flor do Lácio”, a língua portuguesa, uma das filhas do latim, que tem
entre suas irmãs, entre outras, a espanhola, a italiana, a francesa. É inculta
por descuido de seus filhos, mas é bela porque todos reconhecem a delicadeza de
suas expressões, principalmente na fala, dadas as contribuições que recebeu dos
novos falantes de além-mar, no Brasil, como na África e na Ásia.
A região do
Lácio, localizada às margens do mar Tirreno, na Itália, foi subjugada pelos
romanos no século IV a.C. Uma boa mostra de quanto a última flor do Lácio
continua inculta são os programas apresentados no rádio e na televisão no horário eleitoral gratuito, no varejo e no
atacado.
E outros
exemplos – no caso, maus exemplos – procedem de muitos de nossos políticos,
desde há alguns anos cada vez mais expostos em programas de rádio e de
televisão.
Não será o
caso de estipular algum tipo de sanção para a falta de decoro no trato com o
instrumento por excelência do exercício de suas funções? Afinal, além de
maltratar a língua-mãe, cometendo crimes de lesa-língua, muitos políticos fazem
isso impunemente, em nome de milhões de brasileiros, a quem representam no
Legislativo ou em nome de quem governam no Executivo. Infelizmente nem o
Judiciário está livre de ofensas à língua-mãe. Basta uma pesquisa em petições,
denúncias, defesas e sentenças para comprovar que, conquanto os erros não sejam
tão bárbaros como nos dois poderes, os tropeços na língua não são exceções.
* Escritor, Doutor em Letras
pela USP, autor de 30 livros, alguns transpostos para teatro e TV. Assina
colunas semanais na Caras e no Observatório da Imprensa. Dirige o Curso de
Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá, no Rio.
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