Excursão
para a praia
* Por Rodrigo Ramazzini
A proposta surgiu em meio ao churrasco dominical da família:
fazer uma excursão para a praia no próximo final de semana. A ideia foi do
Carlinhos. Na hora, ninguém levou muito a sério e confirmou presença sem
pestanejar, com a esperança que não se confirmasse, como quase tudo que é
tratado neste tipo de evento familiar, que sempre é regado a muita cerveja.
Entretanto, a expectativa não se confirmou e na terça-feira
seguinte o Carlinhos começou a colocar a proposta em prática, ligando para todo
mundo para informar que o deslocamento até a praia estava garantido: tinha
alugado o ônibus do Givanildo, o que gerou o sentimento de desespero em muitos.
O “busão” do Giva, como era conhecido, tinha a reputação de sempre estragar
pelo caminho, além de chamar a atenção por onde passava, pois tinha em suas
cores o verde e o amarelo na pintura, fruto da comemoração pela conquista da Copa
do Mundo de Futebol de 1994. Originalmente, o coletivo era preto com vermelho
quando saiu da montadora em 1976.
Como todo mundo já havia confirmado presença, Carlinhos não
quis ouvir qualquer tipo de desculpas sobre possíveis ausências e durante as
ligações, de forma sucinta e rápida, marcou o horário e local de saída da
excursão:
- Te espero em frente à casa da mãe no domingo. A saída será às
6 horas da manhã. Tchau!
Então, a família, que era grande, não teve opção de escolha.
Por volta das 5h10min, os primeiros parentes de Carlinhos começaram a chegar,
mesmo que alguns tenham ido contrariados, afinal, o destino era uma praia famosa
por receber excursões em massa. Quando o relógio marcou 6 horas em ponto todos
da lista, bem como objetos e alimentos para passarem o dia (mais de dez caixas
de isopores e comida para passar um mês) estavam dentro do ônibus, até mesmo os
vizinhos do Carlinhos, que foram convidados para excursão. A exceção era o
primo Rogerinho, que havia ligado minutos antes, informando:
- Já estou chegando!
O “já estou chegando” dele demorou 45 minutos e resultou em
uma vaia coletiva da turma quando ele entrou no ônibus lotado: Booo! Uuu! Booo! Uuu! Uuuuuuuuuuu!
Passado o contratempo, o Carlinhos gritou para o Givanildo
que, além de proprietário, era motorista do coletivo:
- Mete bala, Giva! Rumo ao litoral!
Mas, para a surpresa de todos, Givanildo redarguiu o comando
de Calinhos com uma cobrança:
- Sem pagar, o ônibus não sai do lugar!
A exigência de Giva provocou aquele alvoroço dentro do
ônibus. Como um cobrador de coletivo, Carlinhos passou de poltrona em poltrona pegando
os R$ 25 por pessoa, como haviam previamente acertado, ainda, no dia do
churrasco. Com o dinheiro arrecadado e a excursão devidamente paga, finalmente,
às 7h05min o ônibus partiu rumo à praia.
Mas, a alegria da partida durou poucos minutos. Duas quadras
depois, Givanildo parou em um posto de combustível para abastecer, com a
justificativa:
- Como eu iria abastecer antes, se não tinha dinheiro?
Apesar dos protestos e sem ter uma saída viável, a excursão
foi obrigada a esperar cerca de 30 minutos até que o abastecimento fosse
realizado. O tempo parado foi usado para que houvesse a troca de lugares dentro
do ônibus. O pessoal do pagode e da cerveja foi para o fundo, as crianças
embolaram-se pelo meio e o restante ocupou as poltronas na frente do coletivo
para jogar conversa fora. Às 7h36mim Givanildo saiu do posto e pisou no
acelerador com destino ao litoral.
Com dez minutos de viagem, que deveria durar 1h30mim no
total, apareceu um novo problema. Depois que o Nelsinho, primo do Carlinhos,
abriu uma caixa de isopor para pegar uma cerveja, “a primeira do dia” ainda
brincou, um forte odor saiu de lá e tomou conta do interior do ônibus. O forte
cheiro de podre, apesar de abrirem todas as janelas, ficou insuportável e a viagem
precisou ser interrompida para que a caixa fosse novamente aberta fora do coletivo
para descobrir a causa. Quando abriram o recinto, a esposa do Carlinhos
sentenciou para o marido:
- Tu pego aquela carne podre que estava em cima da pia,
criatura! Por isso que eu não achei para jogar fora! Meu Deus do céu!
Estava desfeito o mistério do fedor. Passado o contratempo a
viagem retomou o rumo com a turma batendo papo, tomando cerveja e pagodeando,
apesar do barulho estranho oriundo do motor do coletivo. Tudo transcorria bem,
em clima de festa, foi quando o ônibus deu um solavanco, derrubando quem estava
no corredor e fazendo com que muitos batessem com a cabeça nas poltronas da
frente a que estavam sentados. Nova interrupção da viagem para ver se estavam
todos bem. Com a resposta positiva, então,
Carlinhos gritou para Givanildo:
- O que foi isso, Giva?
- Passei por cima de alguma coisa. Não quero nem ver o que
foi! – respondeu o motorista.
Depois do susto, a viagem transcorreu normalmente por 30
minutos até a nova parada. A turma do xixi implorou pela interrupção, mesmo com
o protesto da mulherada. Cerveja é diurética, afirmavam. Givanildo cede aos
apelos e para o ônibus. A cena foi cômica para quem assistiu. Dez homens lado a
lado urinando à beira da rodovia. Os outros motoristas que passavam pelo local
buzinavam ou davam sinal de luz. A reação vinha em coro:
- Ô, corno!
Todos aliviados, hora de retomar a excursão. Eis então que a
fama do ônibus do Givanildo entrou em ação: o ônibus não pegou. Prontamente,
com um rolo de arame, uma marreta e um alicate na mão, apanhados atrás da sua
poltrona de motorista, Giva exclamou de forma profética para o restante da
excursão, mesmo antes de verificar o problema:
- Já sei o que é! É coisa rápida!
A nova parada durou 1h20mim. Neste meio tempo, a turma tomou
café (muitos comeram a galinha com farofa que tinham levado para o almoço), as
mulheres foram em uma loja próxima “olhar a vitrine”, os homens tomaram mais
cerveja e as crianças correram ao redor do ônibus, com o Daniel, filho da
Mariana, irmão de Carlinhos, quase sendo atropelado por um carro, e o Felipe,
afilhado do Carlinhos, ser mordido por um cachorro depois de puxar o rabo dele.
Apesar do choro, nada grave.
Arrumado o veículo ao modo Givanildo, a viagem continuou e a
tensão proporcionada pela parada logo se dissipou. O clima de festa e algazarra
toma conta do ônibus. Pagode, cerveja e dança. Mais 1h30mim de viagem. Quando o
Murilo perguntou ao Carlinhos se não estava demorando demais, o Giva gritou lá
da frente:
- Senta todo mundo rápido! Barreira da polícia!
Foi aquele corre-corre. Ônibus parado. Todos são ordenados a
descer. Havia ocorrido um assalto a banco em uma cidade próxima e a revista
policial estava pegando geral em busca dos autores. Com isso, os policiais nem
verificaram a documentação e os itens obrigatórios do coletivo (Por sorte, pois
tudo estava irregular). Foram mais 38 minutos de parada até a liberação. Quando
todos estavam novamente dentro do ônibus e Givanildo deu a partida no motor, um
policial perguntou da porta do coletivo:
- Para onde vocês irão mesmo?
- Praia! – respondeu Giva.
- Então, vocês estão indo para o lado errado – replicou o
policial.
Vaias e um festival de “eu não acredito” ecoou de dentro do
ônibus. Sem saber corretamente o trajeto, em um cruzamento, Giva optou pelo
caminho errado. Precisavam retornar vários quilômetros, o que levaria cerca de
50 minutos. Não tinham escolha. Em meio a protestos e ao arremesso de alguns
objetos, Giva refez o percurso e entrou na trajetória correta até o litoral. Finalmente,
depois de 1h10mim chegaram à praia. Antes de descerem do ônibus, Carlinhos
discursou em pé perto da porta:
- Atenção, pessoal! Pessoal... Um minutinho de atenção... Foi
difícil a nossa chegada até aqui, passamos por muitas cosias, mas eu garanto a
vocês que nada vai nos atrapalhar daqui para frente! Vamos aproveitar a praia!
Foi ovacionado pelo restante da excursão. Então, começou
aquela “muvuca” de conseguir um lugar na areia, tirar isopor do ônibus, abrir
cadeiras e guarda-sóis. Enfim, quando a turma da excursão conseguiu
posicionar-se e em condições de desfrutar das benesses litorâneas, uma das
crianças da excursão gritou:
- Mãe! Senti um pingo. Acho que vai chover!
O menino fechou a boca e São Pedro abriu a torneira do céu.
Choveu por dois dias seguidos...
* Jornalista e contista
gaúcho
Um pouco parecida com as epopeias que nós, de Montes Claros,MG distante 750 km da praia mais próxima em Ilhéus,Ba estamos habituados. Uma vez, entre poeira e dois carros quebrados, demoramos 22 horas no percurso, para lá ficar por quatro dias.
ResponderExcluirObrigado pela leitura e comentário, Mara!
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