El Che Papa
* Por José Ribamar Bessa Freire
Tudo o
que acontece no Vaticano repercute na Paróquia de Aparecida, em Manaus, de
forma quase instantânea. Ainda mais, quando se trata de mudança de papa. Se o
Sumo Pontíficie, com todo respeito, soltar sem querer um pum discreto em Roma,
ele vai ecoar pelos becos do bairro onde nasci. Sempre foi assim, mas agora a
velocidade e o estrondo são maiores, com o poder da mídia, que usa as novas
tecnologias para ampliar e espetacularizar o fato, digo o flato, infantilizando
o telespectador, anestesiando e agredindo a nossa inteligência.
O Jornal
Nacional (JN) da Rede Globo se especializou nisso de confundir fato com
flato. Enviou um exército de repórteres a Roma e dedicou 71% do seu espaço só
para a eleição do papa, segundo o Controle da Concorrência, instituição
que monitora inserções comerciais para o mercado. No entanto, deu pouca
informação substancial. Tudo foi formatado para evitar qualquer brote de
pensamento crítico. Entrevistou na Praça de São Pedro turistas brasileiros,
seminaristas, brazucas enrolados na bandeira do Brasil, socialaites
verde-amareladas, num exibicionismo folclórico do tipo "Galvão, filma
eu". Pura perfumaria! Saturação de fragrância.
Perfume
demais agride o olfato, enjoa e dá dor de cabeça. O JN gastou tempo precioso
para dizer que o papa tem só um pulmão, que ele recusou a limusine, que anda de
ônibus, que pagou pessoalmente a sua hospedagem, que ama os pobres, que é
carismático, que tem bom humor, que o sapateiro mexicano fez um novo modelo de
sapato papal. Ou para mostrar a gaivota na chaminé da Capela Sistina, o que lhe
permitiu especular sobre a presença do Espírito Santo.
A Igreja,
coitada, sufocada em escândalos e problemas administrativos e de valores que
angustiam 1.2 bilhão de fiéis espalhados pelo mundo - pedofilia, negociata do
Banco Ambrosiano, roubo de documentos, cardeais ficha-suja, celibato dos
padres, uso de camisinha, aborto, matrimônio gay, divórcio... E o JN nem
seu-souza. A fé virou mercadoria. E espetáculo.
O JN
seria mais jornalístico se enviasse um correspondente para acompanhar a eleição
do papa, não da Piazza di San Pietro, mas da Praça Bandeira Branca, em
Manaus. Lá comprovaria a importância de um novo papa e de como ele mexerá com a
vida dos paroquianos.
Tiro por
mim. Posso testemunhar historiando dois exemplos: eu e meu primo Caio. Ambos,
de família inescapavelmente católica, vivemos a infância em Aparecida, mas sob
diferentes papados, porque ele é mais novo do que eu. E isso influenciou de
forma diferenciada nossas práticas e nossas mentes. Eu fiquei mais amargo,
rancoroso e ressentido. Ele, mais aberto, mais light, mais afável. Sabe
por quê?
Cruzada Infantil
O Papa
Pio XII era quem comandava a Igreja Católica, nos anos 1950, quando entrei na
Cruzada Eucarística Infantil. A Cruzadinha, como era conhecida, reunia
meninos e meninas de 7 a 13 anos, tinha como padroeiro São Tarcísio, mártir da
Eucaristia, e veio "trazer ao Brasil, um vigor novo e forte, dos pampas
ao norte", com a participação de milhões de crianças.
Comecei
como "aspirante", nas aulas de catecismo para a primeira
comunhão. Usava, então, uma fita amarela com uma cruz azul no centro, presa na
camisa por um broche. Depois, passei a "perseverante", quando
ganhei uma faixa da mesma cor amarela que cruzava diagonalmente o tórax, do
ombro esquerdo até o quadril direito.
O padre
Cristovão, um americano simpático, organizava o catecismo aos sábados, as
missas aos domingos, e de vez em quando uma procissão, onde a Marlene Bandeira,
uma menina que era membro da Diretoria, vestida de branco, carregava o
estandarte da Cruzadinha. Ela era responsável por redigir as atas das reuniões.
Rezávamos e cantávamos o hino da cruzada: "Somos pequenos da Cruzada /
Terna esperança do Senhor".
O outro
hino era mais belicoso. O "Cruzadinhos amantes da Igreja"
exaltava "a santa peleja, no combate do bem contra o mal",
advertia que "para sermos perfeitos cruzados, sempre ao Papa estaremos
unidos" e finalizava com um grito de guerra:
- "Eia!
Sus! Cruzadinhos amigos / a marchar nos impele o dever / Sem temor afrontando
os perigos / Pois lutar por Jesus é vencer".
Saíamos
da igreja com os cascos afiados, cocainados, incendiados por um furor
guerreiro, nós, os soldados mirins do Exército de Cristo. De lá íamos, muitas
vezes, atirar bombinhas de São João, como se fossem granadas, dentro do templo
Batista, na Xavier de Mendonça, em frente à padaria do seu Armando! Gritávamos
"crente do cu quente" na hora da explosão. Era um horror. As crianças
batistas choravam. Os cultos celebrados pelo pastor Chagas Carneiro, um homem
bom de cabeça branca, eram interrompidos. Até que a Igreja Batista cansada de
guerra se mudou para a praça da Saudade, fugindo assim do terrorismo paroquial.
As
bombinhas não eram produto apenas da molecagem. O papa tinha culpa no cartório.
O próprio nome infeliz - Cruzada - remetia aos guerreiros antigos, que
marcharam ao Oriente para combater os infiéis e libertar os lugares santos. A
Cruzadinha queria libertar as almas e as nações do jugo do demônio. Essa era a
consigna estabelecida por Pio XII: fora da Igreja, não há salvação. E lá de
Roma ele fazia nossa cabeça no Bairro de Aparecida. E tome intolerância. E tome
agressão. Taí o Geraldão que não me deixa mentir.
Mais
sorte do que eu, teve meu primo Caio. Ele só entrou no circuito depois da morte
de Pio XII, quando João XXIII - aquele camponês gordo e bonachão - assumiu,
pregando o ecumenismo, a convivência com a diversidade, o respeito à fé dos
outros, a tolerância. Depois do Concílio Vaticano 2°, ele publicou em 1963 a
encíclica Pacem in Terris, que falava dos "sinais do tempo",
estabelecendo diretrizes para a opção preferencial pelos pobres, criticando o
colonialismo, defendendo os direitos dos trabalhadores e a dignidade da mulher.
Jovens em movimento
O Caio se
deu bem, porque nunca foi um cruzado, jamais considerou outras religiões
como obra do Satanás. É que João XXIII, com experiência na Turquia onde havia
sido delegado apostólico da Santa Sé - terá visitado a Capadócia? - extinguiu a
Cruzada Eucarística Infantil, que era - aqui pra nós - uma aberração,
pois usava crianças para o exercício da intolerância. João XXIII criou, para
substituí-la, o Movimento Eucarístico Jovem. Meu primo, que viveu nesse
ambiente pós-conciliar e moderno, tem outra cabeça, é um homem de fé, mas não
carrega sentimento de culpa por agressões contra quem professa outra religião.
Agora, Francisco, o novo papa
argentino assume tropeçando em um discurso ambíguo. De um lado, faz um gesto em
favor do ecumenismo, afirmando querer melhorar as relações entre católicos e
judeus, o que é positivo, mas de outro afirma que "quem não reza para
Jesus, reza para o diabo". É um ecumenismo limitado, porque deixa de fora
o Islamismo, o Kardecismo e as religiões afro-brasileiras e indígenas: Umbanda,
Pajelança, Catimbó, Toré, Candomblé, Culto de Ifá, Encantaria. O Caboclo das
Sete Encruzilhadas, penhorado, agradeceria ser tratado com respeito.
Vamos ver
qual será o discurso predominante do novo papa - o da Cruzada ou o do Ecumenismo
amplo e irrestrito - e como vai operar na cabeça dos paroquianos de Aparecida.
A professora da PUC/SP, Maria José Rosado Nunes, que dirige a associação das
Mulheres Católicas pelo Direito de Decidir, está preocupada com o autoritarismo
e a posição de Bergoglio contra os direitos das mulheres. Ela recomenda o
diálogo entre religiões, a liberdade de expressão, o respeito à diversidade
entendida como uma releitura evangélica nos dias atuais e não como uma ameaça
aos valores cristãos.
-
Queremos que o pontificado de Francisco se deixe refrescar pelos ventos do
Concilio Vaticano II e abra a possibilidade de uma revisão doutrinal e pastoral
sobre o conceito de família, divórcio, celibato, sacerdócio feminino, direito
das mulheres, união entre pessoas do mesmo sexo e uso de preservativo para a
vivência de uma sexualidade livre e saudável - disse a socióloga.
Se isso
vai acontecer ou não saberemos logo que Jorge Mário Bergoglio se livrar do
bombardeio ao qual foi submetido, com acusações pesadas sobre sua cumplicidade
com a ditadura militar na Argentina ou sua omissão na prisão de dois padres,
considerados subversivos, e no acobertamento do roubo de Ana, neta de Alicia La
Cuadra, ex-presidente das Avós da Praça de Maio.
Uma
guerra de acusações e de denúncias tomou conta das redes sociais, obrigando a
mídia a registrar quem acusa o papa e quem o defende. Graciela Yorio, católica
praticante, irmã do ex-professor de teologia de Bergoglio, o padre Orlando
Yorio, já falecido, diz que está "convencida de que Bergoglio delatou meu
irmão aos militares" e que ficou com sua fé abalada depois da eleição do
papa. "Essa igreja não me representa mais. Tenho um profundo sentimento de
injustiça". Diz que pode perdoar, mas citou Santo Agostinho:
"Primeiro vem a verdade, depois a compaixão".
O
porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi jura que as acusações são feitas por
"uma esquerda anticlerical", que Bergoglio, uma vez nomeado arcebispo
de Buenos Aires, "pediu perdão em nome da Igreja por não ter feito o
bastante durante o período militar", deixando de seguir o exemplo de dom
Paulo Evaristo Arns no Brasil, e que "depois de ser interrogado pela justiça
argentina, Bergoglio nunca foi acusado de nada".
A
situaçao, no entanto, se complica porque o Vaticano acaba de convidar Carlos
Blaquier, dono do engenho Ledesma, para a posse do novo papa. Ele aceitou o
convite, mas o Poder Judiciário não permitiu sua saída. Blaquier está sendo
julgado por haver sequestrado 29 trabalhadores de sua empresa, que foram
encaminhados para os centros clandestinos de tortura. Além disso, na última
sexta-feira, um grupo de torturadores, encabeçados pelo general Menendez, se
apresentou ao tribunal de Córdoba com o escudo do Vaticano no peito, saudando o
novo papa.
O papa
Francesco alerta - segundo a Folha de São Paulo - que a Igreja não é uma ONG,
mas devia ter dito também que não é uma OG, uma organização governamental. De
qualquer forma, resta esperar que a verdade aflore. Por enquanto, só me resta
recorrer à memória da Cruzadinha Infantil e dizer que "eu, Marlene
Bandeira, lavrei a presente ata que será assinada por mim e pelos demais
membros da diretoria".
*
Jornalista e historiador
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