Autocrítica
no túmulo
* Por Marco
Albertim
Custa a
crer que as sardas tenham sumido de sob seus olhos; não mais que três ou
quatro, mas tão vivazes quanto as pupilas curiosas, seguindo o objeto de sua
observação. As sardas marrons, avivando a cintilação da brancura do rosto,
sumiram para dar lugar à palidez fúnebre da pele agora encolhida.
Os círios, um em cada uma das
quatro extremidades do caixão, não se mostram dançantes, visto que a morte
chegara para prostrar até a suspeita de seu espectro. Os cabelos... Ora... os
cabelos incivis de Cíntia urdiram-se sob os cravos em volta de sua testa, de
sua cabeça. Cíntia Bravo, quem diria, agora entregue aos cálculos do passivo,
para logo não reagir à fome dos vermes.
No último encontro que tivemos,
de olho nos meus olhos, por certo espreitando culpas no gaguejo de minhas
palavras, exigiu desculpas porque eu desconfiara da inteireza de seus
sentimentos.
- Como teve a coragem de se pôr
atrás da porta para ouvir a conversa que eu tive com um estranho? Estranho para
você, mas não para o apurado julgamento que faço dos homens que se aproximam de
mim! Você se aproximou de mim com uma proposta indefinida de luta; assim mesmo
eu depositei confiança em você; depositei e tirei você da apatia própria dos
vacilantes que superestimam o inimigo para evitar o confronto com eles. Por
quê? Responda! Você desconfiou de mim!
Como é possível ela não reagir ao
juízo mais vivo que tenho de sua passagem em minha vida!? Em vez disso,
deixa-se murchar sob o véu branco que puseram em seu rosto, como para dar conta
da pureza que ela exorcizava em suas perorações. A mesma cruz do Cristo
chagado, em frente da qual ela passou convicta da superioridade de sua crença
increia, por certo se deixa murchar vendo o rosto encolhido de Cíntia Bravo.
Justo num ataúde roxo, a cor que ela nunca ostentou em suas vestes tão
afogueadas quanto suas ideias; roxo quase preto, não tão negro quanto as
narrativas sem embaraço que fazia sobre os atos do Black Power.
- E Cassius Clay – indaguei dela
para saber o que pensava sobre o pugilista negro.
- Cassius Clay não! Muhammad Ali.
Tornou-se islamita por se recusar a dizer amém à ortodoxia norte-americana. Não
foi ao Vietnam, não combateu os vietcongues porque os vietcongues nunca o
chamaram de crioulo.
- Mas ele bateu numa jornalista
indefesa...
- Oriana Fallaci resistiu ao
fascismo de Mussolini. Mas perdeu-se por sua pretensa independência entre a
esquerda e a direita.
- Por isso tinha que ser
esmurrada pelo peso-pesado de boxe?
- Não importa. No momento em que
ela o entrevistou, ela estava incorporando a ideologia dos brancos na Casa
Branca.
- Cíntia Bravo! Você não está
sendo dialética.
A dialética em Cíntia era um véu
nada sedoso, escamoso a ponto de ferir os escaninhos da alma. Juntava a crítica
ao brilho dos olhos escuros, tão brilhosos que me deixavam bêbado, sorvendo
cada gota de seu discurso verboso. Inda que eu não concordasse, numa linha
pequena, de seu raciocínio, não tive a coragem de me opor; não para ouvir o
mesmo argumento, agora profuso e sentencioso.
São cinco horas da tarde. Logo o
caixão com seu corpo será levado para a sepultura. A cova fora cavada e o
coveiro não se dará conta de que a terra não só vedará a catinga que ainda se
desprende do câncer que a matou; cobrirá o corpo que eu cobicei com tremura nas
pálpebras e inquietação nas mãos. Ela descobriu e não poderia reagir de outro
modo.
- Vamos, responda! Você
desconfiou ou não de mim? Achava que eu seria mulher de me entregar a um
desconhecido só porque fiquei com ele por uma hora trancada num quarto. Saiba
que nem sequer nos deitamos; conversamos a um metro de distância. Ele numa
cadeira e eu noutra!
- Sua dialética é tão
convincente, Cíntia, que ele seria capaz de ter a sua posse mesmo sem o seu
consentimento.
O caixão foi levado, seguido por
um séquito de uma dezena de pessoas. Ninguém de luto porque ela nunca fora de
carregar sentimentos lutuosos. Quando o coveiro pôs a derradeira pá de terra,
eu disse o que todos sentíamos e não tínhamos coragem de dizer.
- Ela tinha orgulho da cor
vermelha que escorria de sua bílis.
*Jornalista
e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de
Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi
ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção
Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A
convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de
Natal”. Tem três livros de contos e um romance.
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