Profunda sintonia
Por Daniel Santos
No
casamento à deriva de um grande amigo, ele reclamava que a esposa raro fazia
concessões, mas aprendeu, a tempo, que as mulheres não podem revelar tudo,
porque sua essência é o mistério – fonte inesgotável da identidade feminina,
cujo acesso, a elas restrito, está vetado aos homens.
As
reclamações começaram logo nas primeiras semanas de vida em comum. O marido acordava
em plena madrugada com cochichos pela casa e se, de início, suspeitava de
ladrões, logo acusou a esposa de esconder amantes, se bem ela negasse tudo e, a
rigor, ignorasse a origem dos ruídos.
Tanta
desconfiança minou o casamento. O homem andava pela casa, fumava, falava
sozinho, sem atinar a origem dos cochichos. Uma noite, no entanto, sentou-se
defronte ao aquário que ela tanto quisera comprar e percebeu: os peixes moviam
os lábios numa espécie de mímica!
Era
isso, então! Arrependido das suspeitas, correu até a esposa para fazerem as
pazes. Ao puxar o lençol que encobria seu rosto, viu que também ela, em sono
profundo, movia os lábios à maneira dos peixes, como a dialogar com
assemelhados que se nutrem no mistério das águas.
Por
isso, a mulher não estava sempre a seu dispor: tinha de manter sintonia com o
elemento primevo e arcaico da sua essência. Ou não seria mulher. Cabia a ele
compreender. Deitou-se, então, por trás dela como um rochedo a suportar o
embate da pélvis poderosa. E adormeceu em paz.
* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e
redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de
São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou
"A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e
"Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o
romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para obras
em fase de conclusão, em 2001.
Estão de volta os contos concretizados em cinco parágrafos de quatro linhas, com personagens estranhos e um mistério no final. Difícil conseguir contar uma história bem contada sobre essa fórmula, e você esnoba talento. E estamos do lado de cá atentos para não perder nada.
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