Anjos feridos
Por Pedro J. Bondaczuk
Chovia copiosamente naquele meio
de tarde de meados de janeiro de 1950. Era um daqueles tantos temporais
característicos do verão na Grande São Paulo, com muitos raios e trovões,
precedidos de forte ventania. Certamente, nas baixadas, haveria enchentes, com
perdas, parciais ou totais, dos parcos bens dos moradores dessas áreas
impróprias para moradias, drama que se repetia, de ano para ano, sem que
qualquer providência fosse tomada.
As ruas daquele novo bairro de
São Caetano do Sul – recém-emancipado, na área conhecida como ABC paulista, por
causa das letras iniciais das três cidades que a compunham, Santo André, São
Bernardo do Campo e São Caetano do Sul
–, de terra vermelha e ainda sem guias, tomadas, em vários trechos, pelo
mato, lembravam, em seus traçados irregulares, mais uma trilha, uma espécie de
picada natural do que, propriamente, vias públicas.
E, como seria de se esperar,
estavam encharcadas, barrentas e quase intransitáveis para veículos como automóveis
ou caminhões. Na verdade, poucos deles trafegavam por ali. O trânsito maior era
de carroças: do sorveteiro, do verdureiro, do carvoeiro etc. E de bicicletas,
que estavam virando mania no bairro.
De vez em quando, a Prefeitura
mandava um trator aplainar essas ruas e alguns caminhões de pedregulho eram
despejados então. Não tardava muito, porém, para o mato voltar a crescer e
quase cobrir, por completo, muitas delas. Havia promessas de asfalto, a
principal reivindicação dos moradores, todavia sem qualquer previsão de data
para o início dos trabalhos.
O ponto de ônibus mais próximo
ficava a dois quarteirões, numa das poucas vias públicas já calçadas da vila. O
calçamento, coisa bastante recente, comemorado como grande melhoria pelos
moradores do bairro, era de paralelepípedos que, quando molhados, ficavam mais
lisos do que sabão.
A vila surgira há pouco tempo, em
decorrência do sucesso de um loteamento na área. Por se tratar de um local
privilegiado, no alto de uma colina, os terrenos foram todos vendidos rapidamente.
Ademais, as prestações eram baratas, embora a se perder de vista, coisa de
cinco anos ou mais para pagar.
Os moradores eram todos
operários, procedentes de várias partes do País, atraídos pela oferta de
empregos de grandes indústrias que haviam se instalado no município antes mesmo
da sua emancipação, como a Matarazzo, a Colombina e principalmente a General
Motors, entre outras tantas. O mercado de trabalho estava propício, também,
para prestadores de serviço autônomos, como pedreiros, poceiros (cavadores de
poços artesianos, já que água encanada ainda não havia na maior parte do
município), carpinteiros, serralheiros etc.
São Caetano crescia a olhos
vistos, expandindo-se para todos os lados. Tinha a vantagem, além das
indústrias que ali se instalavam a quase todos os dias, da sua localização,
vizinha que era da industrializada Santo André e, principalmente, de São Paulo
que, como dizia um slogan muito em voga na ocasião, “não podia parar”. E não
parava.
Da noite para o dia, no novo
loteamento, começaram a “brotar” casas e mais casas por toda a parte, algumas
ainda inacabadas, embora já habitadas por seus proprietários e outras, até, com
padrão de razoável para bom, com acabamento bastante refinado.
Nesta altura, havia poucos
terrenos ainda vazios. E, na maioria destes, já existiam pilhas de tijolos,
além de montes de pedras, areias e até telhas, indicando que logo novas
moradias seriam construídas. Muitas construções estavam em andamento por toda a
parte. Algumas, ainda estavam nos alicerces. Outras, já tinham as paredes
erguidas e estavam na fase de estuques (as lajes de concreto ainda não eram
muito comuns na época), antes da construção dos telhados.
Há questão de seis meses, uma
linha de ônibus fora criada, para transportar os moradores até o Centro e
vice-versa. Quem quisesse ir para São Paulo, ou para Santo André, teria que
caminhar dez quarteirões, até a Avenida Goiás, uma das mais extensas do
município, que praticamente o cortava de fora a fora.
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Paulinho tremia de frio, mas
arfava, de satisfação, com a água fria caindo-lhe sobre a cabeça, entrando-lhe
pelos olhos, nariz e ouvidos e escorrendo por dentro da gola da camisa,
encharcada, como a calça de flanela com elástico na cintura que vestia. Estava
descalço e mergulhava os pés com satisfação no barro mole, que lhe dava uma
gostosa sensação de maciez. Nunca se sentira tão livre, tão solto, tão
eufórico.
A chuva lavava-lhe o corpo
franzino e a alma entristecida. As ruas estavam vazias naquela hora. Nenhuma
criança se aventurara a brincar na enxurrada. Os pais, certamente, não
deixavam. Só Paulinho estava ali, fazendo o que sempre tivera vontade, mas que
nunca antes teve coragem de fazer. Sentia-se, pois, mais corajoso do que os
outros meninos, que não ousavam desafiar as ordens paternas.
Não pensava em nada. Só gozava a
satisfação da água caindo sobre o seu corpo mirrado e deslizando pelo rosto,
como que numa suave carícia, dessas que raramente recebia de quem quer que
fosse. Gostaria que esse momento de euforia e liberdade nunca terminasse, que
fosse eterno, que durasse dias, semanas, meses, anos, a vida toda até.
O engraçado é que Paulinho morria
de medo de chuva. Isto, quando tinha que ficar dentro de casa. Sentindo-a cair,
porém, no corpo, era diferente. Sentia-se invulnerável, forte e poderoso. Não
gostava, especialmente, de vento. Quando ventava bastante, às vezes, se
escondia dentro do guarda-roupa. Temia que a casa desmoronasse e que, dessa
forma, ficasse soterrado.
Fechava os olhos sempre que algum
raio riscava os céus, traçando caprichosos zigues-zagues de luz. O som dos
trovões apavorava-o. Tapava os ouvidos para não ouvir seu barulho. Às vezes,
porém, eles eram tão fortes, que chegavam a fazer tremer o caixilho da janela
do seu quarto, com os vidros fazendo um tilintar que lhe parecia sinistro e
ameaçador.
Ifigênia lhe dissera, certa vez,
que os trovões eram o barulho de móveis sendo arrastados por São Pedro quando
lavava o céu. Não acreditara muito nisso. Mas, às vezes, ficava em dúvida. Até poderia
ser. Afinal, Ifigênia era seu anjo da guarda e não iria mentir para ele.
Ponderava, porém: “se há tantos móveis no céu, como eles não caíam? O espaço
não era firme. Era fofo, como as nuvens de algodão”. Sim, como as que via em
certos dias de sol, parcialmente nublados.
Se temia a chuva, quando dentro
de casa, no meio dela não sentia qualquer temor. Olhava a sucessão de raios no
céu e se divertia com eles. Pareciam, em tamanho bastante ampliado, aquelas
luzes que vira na árvore de Natal na casa do primo Roberto. Os trovões
lembravam os bumbos das fanfarras do desfile de Primeiro de Maio que havia
visto no centro da cidade no ano passado. E a água? Que delícia, embora um
pouco fria!.
Para tornar a brincadeira ainda
melhor, subiu a rua, ao lado da sua casa, uma ladeira, contudo não muito íngreme,
e se deixou levar pela enxurrada. Parecia um rio, com corredeiras velozes,
embora bastante raso. Era miniatura daquele da sua terra natal. Só que aquele
era muito, mas muito mais largo. Quase não dava para enxergar a outra margem.
E, certamente, era fundo. Ouvira seu pai contar aos amigos que, certa ocasião,
um grupo de argentinos havia se afogado nesse rio, quando seu barco virou, bem
no meio. E nenhum deles sabia nadar.
Mas ali não havia perigo de
afogamento. Desceu uma vez pela enxurrada e achou uma delícia. Sentiu, todavia,
uma dorzinha na parte inferior da perna, uma espécie de ardência. Não iria
chorar. “Homem não chora”, costumava dizer o pai. E tio Francisco havia dito a
mesma coisa quando Paulinho caiu de uma cadeira, quando brincava de incliná-la
para trás.
Desta vez, fora arranhado por
algum caco de vidro ou pedaço de telha, não deu para perceber exatamente o que
foi. Nada sério. Sequer chegou a sangrar. Repetiu a dose de descer pela
enxurrada mais uma, duas, três, oito vezes. Cada vez que chegava lá embaixo, se
arrastava, de novo, para o alto da rua, vencendo a força das águas barrentas,
de uma coloração entre o vermelho escuro e o marrom.
Numa das subidas, escorregou e
desceu rua abaixo, meio que descontrolado, quando ainda estava na metade dela.
Chegou a se engasgar. Tossiu bastante e cuspiu aquela água suja e barrenta que
lhe havia entrado na boca. A brincadeira só parou com a chegada de Ifigênia
que, sem nenhuma censura ou reprimenda, com o carinho de quem compreende tudo,
até as peraltices de um menino levado, tomou-o no colo, sem se importar em
sujar a roupa de barro, e levou-o para dentro de casa.
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Paulinho era uma criança de
notável beleza. Não havia quem, ao vê-lo, não reparasse nos seus traços suaves,
em seu olhar inteligente, em seu queixo bem torneado e que sugeria uma pessoa
determinada, senão teimosa, e em seu nariz bem-proporcionado, como o dos nobres
romanos, que apareciam nas estátuas da Roma antiga.
Parecia um anjo, desses
estilizados, de gravura, embora não tivesse asas e não fosse rechonchudo, como
os anjinhos de Michelangelo, de Rafael ou mesmo dos mostrados nos desenhos de
Gustave Doré. Era loirinho, loirinho, com os cabelos, rapados, mas com uma
franjinha na testa, até brilhantes, como se emitissem luz principalmente após o
banho.
Paulinho tinha os olhos azuis, de
uma coloração clara, uniforme, profunda, que pareciam sorrir. Não havia quem
não os admirasse e não expressasse, espontaneamente, essa admiração. Denotavam
inteligência. Eram brilhantes, vivos, sagazes e inquiridores. Quando o menino
sorria, o mundo ao redor, parecia se iluminar. Formavam-se duas suaves
covinhas, em cada lado dos lábios, que eram um encanto. A pele era clarinha,
sem nenhuma mancha ou senão, como pêssegos maduros e sedosos.
Quando recebia visitas, vivia
sendo apertado e, às vezes, até mordido, pelas tias, que cobriam seu rosto de
beijos, não resistindo aos seus encantos. Paulinho reclamava disso, pois às vezes
esses afagos chegavam a doer. E ficava com o rosto babado, melado de saliva, o
que lhe produzia sensação desagradável, de que não gostava.
Quem sabia, de fato, fazer-lhe
carinho – e dela nunca os dispensava, mas sempre queria mais, e mais e mais –
era Ifigênia. Seus beijos eram suaves, macios, secos e davam arrepios de prazer
no garotinho. Suas mãos, quando corriam-lhe pelo rosto, pelos ombros, pelas
costas, eram mornas, como se feitas de veludo, e lhe transmitiam sensação de
segurança, de afeto, de cumplicidade e de amor.
Sentadinho, quieto (o que era
muito raro), Paulinho era a figura perfeita de um anjo. Mas havia um senão. O
menino era paralítico. Não podia andar. Fora acometido de poliomielite há coisa
de três anos e, dessa forma, metade da sua infância fora uma romaria por
consultórios médicos, hospitais, mesas de cirurgia, salas de fisioterapia etc.
Pequenino, ainda, tivera que
conviver com a dor. E não só com ela – com a qual, até, já estava habituado –
mas, principalmente, com a insegurança e com a frustração de não ser como as
outras crianças, de não poder andar, correr, passear de bicicleta, jogar
futebol e, enfim, fazer tudo o que um gurizinho normal, da sua idade, gosta,
pode e até deve.
Sentia-se culpado pela sua
doença, por ver os pais sempre tão tristes e amargos, lamentando seu destino.
Era forte, poderoso, agudo, avassalador seu sentimento de rejeição.
Testemunhara, certa noite, a mãe, desesperada, chorando, dizer ao seu pai:
- Cadê meu filho?! Quero meu
filho! Meu menininho morreu!
Embora pequeno, essas palavras
calaram fundo em sua mente. Compreendeu perfeitamente seu sentido, embora nunca
confessasse isso a ninguém, nem mesmo a Ifigênia. Não era dele que os pais
gostavam. Era daquele garotinho de antes da febre, da qual acordou, semanas
depois, completamente paralisado. Só que não havia morrido, como a mãe dissera.
Tinha certeza que não. Pois lá estava ele, consciente de tudo, com as
lembranças intactas, embora com o corpo ferido, dilacerado, inerte, sem
responder às vontades do cérebro.
Paulinho locomovia-se se
arrastando pelo chão. Parecia não uma cobra, como já lhe haviam dito, mas um
lagarto, ágil e matreiro. Cruzava as perninhas – que se atrofiavam, mais e
mais, à medida que o tempo passava – e, apoiando-se nas duas mãos, impulsionava
o corpo e se deslocava com velocidade espantosa. Chegava a apostar corrida com
os outros meninos e, às vezes, até ganhava.
Não havia, claro, calça que
chegasse. Mal sua mãe costurava uma nova, não tardava para que logo ficasse
toda puída no traseiro, por causa do atrito causado pelo freqüente contato com
o chão. Vivia apanhando por isso. Mas o pai só lhe batera uma única vez. Foi
quando havia ido a uns dois quarteirões de distância de casa, com o risco de
ser atropelado ou algo assim. Paulinho não somente parecia, mas era, como se
vê, de fato, um anjo... ferido.
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No esplendor dos seus dezenove
anos, recém-completados, Ifigênia era belíssima, dessa beleza irradiante, digna
de ser imortalizada, por exemplo, por um Leonardo da Vinci, um Michelangelo ou
outro mestre qualquer. Ou, quem sabe, em uma escultura, que lhe caberia ainda
melhor, dada a perfeição das suas formas. Quando passava, não havia quem não
voltasse a cabeça para olhar aquela mulher de traços marcantes, cujo rosto
denotava serenidade e bondade.
Pele clara, cabelos castanhos,
sedosos e brilhantes, com comprimento que ia até os ombros, seu rosto chamava a
atenção em especial pelos olhos: verdes, profundos, que irradiavam intensa luz
interior e pareciam sorrir quando se fixavam no interlocutor. Tinha lábios
grossos, carnudos, posto que delicados e sensuais, vermelhos, que prescindiam
de batom para se destacarem.
Seu rosto redondo, com orelhas
bem desenhadas e proporcionais, completava um conjunto em que o mais exigente
esteta não conseguiria ver o menor defeito. Dispensava maquiagem, embora
fizesse uso discreto dela, o que realçava, ainda mais, sua aparência de tirar o
fôlego. Era impossível vê-la sem, de imediato, se apaixonar por ela.
Ifigênia tinha estatura mediana,
de 1,65 m
e pesava 59 quilos, sem nenhuma gordura. Busto, cintura, quadris, braços e
pernas eram rigorosamente proporcionais. Venceria, com os pés nas costas,
qualquer concurso de beleza.
Os seios eram daquele formato que
os poetas consideram ideal e perfeito: como duas taças de cristal. Por
freqüentar o clube da General Motors, empresa em que trabalhava como secretária
bilingue, notadamente as piscinas, tinha a pele bronzeada, com coloração
uniforme e natural.
Ifigênia namorava, há já dois
anos, um promissor estudante de Engenharia, com o qual pretendia se casar, tão
logo se formasse. Propusera-se a subir ao altar virgem, já que era muito
religiosa e recatada. O namoro era, digamos, bastante comportado, nunca
passando de um ou outro beijo um pouco mais ardente que, a bem da verdade, era
coisa rara. Houve ocasião em que o namorado tentara carícias mais ousadas
(pudera!), mas, invariavelmente, era contido nessas investidas pela moça que,
embora tentada a permitir e até a estimular avanços, sabia se controlar.
“Depois de casados, haveria tempo de sobra para o sexo”, raciocinava.
Mas a grande paixão de Ifigênia
não era o namorado, nem o trabalho e nem o que quer que fosse. Era Paulinho.
Desde que conhecera o menino, não o tirava da cabeça. Ia, duas vezes ao dia –
pela manhã, antes de ir para a GM e à tarde, quando saía do serviço – à sua
casa, para saber como estava, se havia comido, se não fizera bagunça, se não
tinha se machucado etc. Isto, durante a semana. Aos sábados e domingos passava
o dia todo com o seu xodó e não trocava esses momentos por nada no mundo.
Claro que esse apego de Ifigênia
por Paulinho não era compreendido por ninguém. A moça vivia ouvindo críticas e
mais críticas: dos seus pais, dos do menino, do namorado, de todos que a
conheciam, enfim. “Por que essa gente não se mete com a própria vida”,
desabafava, às vezes. Contudo, pouco se importava com as opiniões alheias, pelo
menos neste assunto, que lhe era tabu.
A companhia do “seu” garotinho
mais do que compensava estas e outras chateações. Os pais de Paulinho eram muito
orgulhosos e não admitiam caridade de ninguém. Ifigênia teve que usar todo seu
poder de argumentação para convencê-los que não fazia o que fazia por piedade,
mas por gosto pessoal. Ainda assim, estes lhe disseram que pagariam “por seu
trabalho”. A moça ficou irritada com isso, mas guardou para si a irritação.
Desconversou, deu um sorriso amarelo e mudou de assunto. Não queria correr o
risco de ser proibida de ver o seu menino. “Deus me livre!”, pensou, apavorada
por essa perspectiva.
Seus pais, depois que tiveram
certeza de onde ela ia aos sábados e domingos, quando se convenceram que não
fazia nada de errado, mas apenas satisfazia o que entendiam como mero
“capricho”, nunca mais tocaram no assunto.
Quanto ao namorado... Quase
romperam o namoro. Ifigênia achava incrível que ele tivesse ciúmes de Paulinho.
Em vez de se sentir lisonjeada com isso, como qualquer moça se sentiria, ficou
foi furiosa. “Onde já se viu!”, esbravejou quando este fez uma observação a
respeito, que considerou ofensiva e desrespeitosa.
Desde essa ocasião, o namoro
esfriou e já beirava à ruptura. O incidente ocorreu numa noite de domingo –
único dia da semana em que agora os dois ficavam juntos – e começou com uma
observação de passagem, feita por André (este era o nome do namorado).
- Compreendo o que está se
passando com você. É seu instinto materno que aflora. Quando nos casarmos,
teremos um filho melhor do que Paulinho – disse, achando que convenceria
Ifigênia.
- Melhor?! Melhor?! Cala essa
boca! – respondeu a moça, furiosa, com olhar hostil, ameaçando, até mesmo,
avançar sobre o rapaz.
Sem atinar para o fato, André,
inadvertidamente, havia tocado num ponto sensível da namorada.
- Está bom, está bom, não melhor,
mas igual ao Paulinho! Está bem assim?! – tentou remediar.
- Cala a boca! Nunca mais toque
nesse assunto! Se voltar a falar disso, estará tudo acabado! Acabado, ouviu
bem?! – respondeu, trêmula, pálida e ofegante, pondo fim, abruptamente, à
conversa.
Ifigênia não queria filho
“melhor” do que seu menino. Ademais, considerava isso impossível. Não desejava
nem mesmo alguém que fosse “igual” a ele. Queria Paulinho, só ele, do jeitinho
que era, com seu defeito físico, sua vulnerabilidade e seu olhar triste e
carente! Ninguém mais e nem menos.
Claro que sabia que isso era
impossível. Mas no fundo, bem no fundo do seu coração, nutria essa esperança
louca. Chegou, até, a pensar bobagem, como, por exemplo, em seqüestrar seu
menino e levá-lo para bem longe dali, para dar-lhe todo o carinho e afeto de
que precisava e que não tinha, por parte dos pais. Ifigênia não somente
parecia, mas era, como se vê, um anjo... ferido pela impossibilidade de
realizar seu maior desejo.
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Ifigênia, sem nenhuma censura ou
reprimenda, com o carinho de quem compreende tudo, até as peraltices de um menino
levado, tomou Paulinho no colo, sem se importar em sujar a roupa de barro, e
tirou-o da chuva, levando-o para dentro de casa.
O menino apenas abraçou-a com
força e deu vários beijinhos em seu rosto. Não disse nada do porque daquela
aventura e nem precisava. Ambos entendiam-se só pelo olhar. Era um caso raro,
raríssimo, de amor entre duas pessoas, com diferença de idade tão grande. Que o
pequeno não soubesse explicar o que e por que sentia, era compreensível.
Difícil de entender, todavia, era o sentimento da moça, total, absoluto,
irrestrito e avassalador. Era um caso que nem o mais imaginativo dos
ficcionistas conseguiria pensar. Como se vê, mais uma vez a realidade dava um
banho de criatividade na imaginação.
A primeira providência de
Ifigênia foi buscar a bacia em que Paulinho tomava banho, que estava no
quintal. Depois, aqueceu um latão de cinco litros, de água, no tosco fogão a
carvão da casa. Com paciência infinita, despiu, delicadamente, o menino e lavou
meticulosamente seu corpinho franzino e frágil, para tirar toda aquela lama que
havia se impregnado na pele e que lhe dava uma aparência engraçada, mas
insolitamente bela, de uma coloração vermelho-amarronzada.
- Feche os olhos, Paulinho –
disse Ifigênia, ao ensaboar-lhe a cabeça.
O menino obedeceu. A moça
ensaboou-lhe, delicadamente, os cabelos, massageando-os com infinito carinho.
Depois, com um canecão de água quentinha, enxaguou-os meticulosamente. Nesse
momento, foi surpreendida por uma declaração que a comoveu e abalou:
- Ifi, gostaria que você fosse
minha mãe!
Ifigênia quase caiu de costas.
Foram as palavras mais bonitas que ouviu em toda a vida. Sabia do apego do
menino, mas não julgava que chegasse a esse ponto. Lágrimas de felicidade
brotaram-lhe dos olhos verdes e expressivos, que ficaram ainda mais belos, face
a essa expressão de emoção.
- Já sou sua mãe, bobinho. Mãe
postiça.
- Postiça não vale. Queria que
fosse de verdade. Ih, Ifi, você está chorando?
- Não, não estou. Quando ensaboei
sua cabeça, espirrou sabão nos meus olhos. E se estivesse? Você se esquece que
sou mulher? Mulher chora, fique sabendo.
- Eu sei! Eu não choro.
- Pudera! Só faltava essa! Não
fica bem um marmanjo, desse tamanho, chorar!
Ifigênia sabia o quanto o seu
menino era estóico. Nos últimos três anos, passara por sofrimentos que
abateriam qualquer adulto por mais forte e resistente que fosse. Fora uma
sucessão de internações na Santa Casa de São Paulo, de dolorosas cirurgias, de muita
fisioterapia e massagens, numa tentativa, inútil, de fazê-lo voltar a andar. E
Paulinho passara por tudo isso como se fossem coisas normais, sem manhas, sem
queixas, com uma coragem de fazer inveja a endurecidos e brutais lutadores de
boxe, acostumados à dor, dada a natureza da sua atividade. Apenas seus olhinhos
azuis, como o céu em dia de sol e luz, refletiam tamanho sofrimento. E, assim
mesmo, somente um bom observador seria capaz de perceber.
- Nossa, que arranhão feio é este
na sua coxa direita?! Vamos já fazer um curativo!
- Arranhão?! Gozado, não senti
nada! – mentiu Paulinho, com um sorriso maroto.
Ifigênia enrolou-o numa toalha
felpuda e levou-o para o quarto, para vestir-lhe o pijama limpo e bem passado.
Esse era o momento de intimidade que mais gostava. Era pretexto para abraçar
seu menino, com delicadeza infinita e pleno amor e sentir seu corpinho frágil e
já tão judiado junto ao seu. Antes de voltar para a cozinha, deu um beijinho na
bochecha do garoto, piscando-lhe, com cumplicidade.
A seguir, a moça preparou
suculenta canja para Paulinho, arrematada com generoso copo de Toddy, bem
quente. O garoto comeu e bebeu com gosto e já não sentia mais o frio, que
fizera todo seu corpo tremer e seu queixo sacudir-se como se feito de gelatina,
depois que Ifigênia o tirara da chuva. A sensação que tinha, agora, era de
conforto, carinho e segurança, que só sua “mãe postiça” sabia lhe proporcionar,
e na medida exata que necessitava, nem mais e nem menos.
- Ifi, conta uma história – pediu
com aquele seu irresistível jeitinho meigo, capaz de amolecer o mais
empedernido coração.
- Claro! Qual você quer ouvir?
- A de Joãozinho e Mariazinha.
- Outra vez?!
Ifigênia, sempre que contava
alguma história, modificava detalhes e, não raro, até mesmo o desfecho. De
sorte que a mesma narrativa nunca era, de fato, a mesma. O menino se divertia
com essa criatividade e observava isso, rindo. E os dois se divertiam a valer,
cúmplices que eram, capazes de se entender sem que sequer fosse preciso falar
nada, somente por gestos, olhares, toques de mão e enfáticos sorrisos.
Não tardou para Paulinho dormir.
Ifigênia deu-lhe um beijo suave e
amoroso na testa, apenas um leve roçar de lábios, como se passasse uma
pétala de rosa no menino e foi lavar sua roupa enlameada, para apagar todos os
vestígios da sua traquinagem e assim evitar que levasse uma surra quando os
pais voltassem do trabalho. Só iria embora depois que esta estivesse seca e bem
passada.
Outra pessoa qualquer teria
censurado Paulinho (“para o seu bem”, argumentaria) pelo que fizera.
Dir-lhe-ia, provavelmente em tom de ameaça, que nunca mais deveria repetir
aquilo. Talvez até lhe desse uma ou duas palmadas “corretivas”. Qualquer
pessoa, com certeza, agiria assim. Não Ifigênia.
Ela conhecia seu menino muito bem
e sabia da sua ânsia de liberdade. Tinha certeza que nunca mais Paulinho sairia
na chuva e nem se arriscaria a sei lá o quê. O menino era inteligente, sagaz e,
sobretudo, teimoso. “Marca de uma personalidade forte”, pensava. Ademais,
aquela aventura, com certeza, o acompanharia vida afora, como uma lembrança
valiosa, dessas que nos consolam na velhice.
Seca e passada a roupa, Ifigênia
foi, pé ante pé, até a cama do garotinho e ficou um tempão contemplando-o, a
dormir. O menino sorria. Certamente estava tendo um sonho agradável, diferente
da vida real, em que sofria com a perversa doença que lhe deixara marcas tão
severas, que o acompanhariam para sempre, e com o abandono a que era relegado,
por causa das circunstâncias.
A moça beijou, novamente, seu
menino e foi embora. Teria que percorrer, a pé, na noite escura e chuvosa, um
longo trecho, até o ponto de ônibus, que a levaria ao seu bairro. Apesar da
nova vila ser relativamente segura – nunca ninguém ouvira falar de assaltos,
estupros ou outro tipo de violência – não era muito prudente uma moça andar
sozinha, naqueles ermos e àquela hora.
Os pais de Paulinho eram pessoas
boníssimas, mas pobres, inexperientes (eram muito jovens) e, sobretudo,
orgulhosas. Não admitiam ajuda de ninguém, que interpretavam (quem tentasse
ajudar) como intrometidos, que os queriam humilhar com “caridade”, o que lhes
era a suprema ofensa. Precisavam garantir o sustento e trabalhavam longe, em São Paulo. Tinham
que tomar três conduções para ir e outras três para voltar do trabalho. O tempo
que poderiam dedicar ao menino, portanto, gastavam nesses deslocamentos.
Ademais, tinham planos bastante
ambiciosos para o futuro, como o de construir a nova casa, no vasto terreno que
haviam adquirido com prestações a se perderem de vista, rigorosamente em dia, em
cujos fundos estavam os três cômodos em que moravam atualmente. Além disso,
planejavam prover a melhor assistência médica e educação que o dinheiro pudesse
comprar ao filho e, se possível, até financiar sua cura. Enfim... queriam
vencer na grande cidade.
Tudo isso, porém, eram planos
para o futuro. No presente... a realidade do garoto era sombria e até perigosa.
Era de solidão e abandono. O dinheiro que ganhavam não dava para contratar
alguém que cuidasse dele. Ifigênia, porém, fazia isso – com a disponibilidade
de tempo que tinha, sacrificando namoro, descanso, lazer – como ninguém faria
igual. Mas não considerava isso nenhum sacrifício, mas privilégio, oportunidade
que a vida lhe dava de amar alguém de verdade. E fazia tudo de graça! Não,
minto: tinha por pagamento o afeto de Paulinho, o que valia mais, muito mais,
infinitamente mais do que qualquer dinheiro, por maior que fosse a
quantia.
Tratava-se da associação ideal de
dois anjos... feridos. Um, na própria carne, com as marcas de uma doença
incurável que o acompanhariam pela vida afora, o tornando alvo de disfarçado
preconceito e de fingida piedade alheia. Outro, ferido na alma, por saber que,
mais dia menos dia, teria que se separar de alguém a quem amava sem restrições
e nem reservas, com amor espontâneo e absoluto que raros têm a oportunidade de
sentir algum dia.
* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio
Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor
do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico
de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos
livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos),
além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com.
Twitter:@bondaczuk
Paulinho é um pouco, ou um muito, você, Pedro.
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