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Sem proselitismos
O País vive em pleno clima eleitoral, na efervescência de paixões políticas e ideológicas que antecede a grande festa da democracia, que é o momento do voto. Em poucas horas, teremos a magna responsabilidade de escolher os que irão comandar os destinos de cada Estado da Federação e do Brasil pelos próximos quatro anos. É desnecessário enfatizar os riscos de um voto dado apenas emocionalmente, sem análises prévias, erro em geral ditado pela vã esperança do surgimento de um “salvador da Pátria”, que nos livre da corrupção, da violência e da miséria, entre tantos outros males sociais do nosso tempo, e não exclusivos do Brasil, diga-se de passagem.
É preciso que nos conscientizemos, todavia, que não há milagres e muito menos milagreiros. Os postulantes aos cargos eletivos em disputa são iguaizinhos a nós. Alguns, talvez, tenham um pouco mais de preparo, notadamente no que se refere a funções administrativas. Outros tantos, todavia, certamente nos são inferiores em tudo e estão de olho, apenas, na satisfação de interesses pessoais, não importa se legítimos ou ilegítimos, quando não apenas contem com o tolo intuito de incensarem as próprias vaidades.
É tarefa das mais árduas fazer avaliações sobre quais postulantes são os mais adequados para atenderem nossas aspirações, reivindicações e esperanças, já que não existem os que sejam ideais. As campanhas eleitorais, da forma como estão postas, não esclarecem coisa alguma a respeito dos postulantes. Na verdade, confundem.
Os candidatos – salvo raríssimas exceções – não expõem idéias próprias (supondo, claro, que as tenham), mas as dos marqueteiros contratados para convencerem eleitores mal-informados, ou recalcitrantes, a darem o voto aos seus clientes, tratados como produtos de consumo, como sabonetes, dentifrícios etc., dos quais se exaltam as “qualidades” e se omitem as deficiências ou efeitos colaterais danosos, quando os casos.
Convenhamos, amigos, países que precisam de “salvadores da Pátria” não merecem ser salvos. O nosso não precisa. Fuja dos que se colocam como tal. É certo que, na verdade, os que se dizem esses “seres providenciais” tentarão salvar os próprios bolsos e os de seus apaniguados. Portanto, o eleitor deve ficar muito atento nos programas expostos pelos candidatos para a sua criteriosa análise. E mesmo estes não dizem muita coisa, por serem, via de regra, elaborados por terceiros e com fins não raro propagandísticos. Depois de eleitos, raros são postos em prática.
Ao mesmo tempo, sou contrário ao comprometimento do eleitor comum – não me refiro a membros de partido ou funcionários de empresas de marketing político responsáveis pelas campanhas, pois estes apenas estão fazendo seus serviços, mas a mim, a você, à sua mulher etc. – com este ou aquele candidato, na tentativa de fazer proselitismo.
Quando tentamos convencer alguém da exatidão de uma idéia que sequer temos absoluta convicção de ser correta, nossa responsabilidade se multiplica. Quando se trata de avaliar e, consequentemente, de avalizar pessoas ela atinge o paroxismo. Por que precisamos de cautela ao abraçar a causa política de quem quer que seja? Simples, porque podemos, com nosso testemunho e empenho, induzir nosso interlocutor ao erro, não raro de conseqüências irreparáveis. Isso é mais comum e corriqueiro do que se pensa.
Em questões políticas, não tento, nunca tentei e jamais tentarei induzir ninguém a abraçar minhas idéias (garanto que as tenho) e a partilhar minhas escolhas (que já estão todas definidas) e, também, não me deixo induzir. Sigo minha intuição. Ela é infalível? Claro que não! Por isso, não quero e não permito que ninguém me acompanhe.
O filósofo português Agostinho da Silva, no livro “Textos e ensaios filosóficos”, recomenda: “Nunca se precipite a aderir; não se deixe levar por nenhum sentimento, exceto o do amor de entendimento, de ver o mais possível claro dentro e fora de si; critique tudo o que receba e não deixe que nada se deposite no seu espírito senão pela peneira da crítica, pelo critério da coerência, pela concordância dos fatos”.
Essa recomendação é válida, óbvio, quer sejamos artistas, quer cientistas ou mesmo que não exerçamos nenhuma atividade congênere, mas sejamos simples eleitores à procura de candidatos que satisfaçam (ou se aproximem disso) nossas expectativas. Essa é a atitude sensata e justa de quem pretenda pensar e agir com sabedoria e bom-senso.
Nossa responsabilidade, é óbvio, se agiganta se tivermos, na sociedade, o papel de “formadores de opinião”. E nós, escritores e, principalmente, jornalistas, temos essa magna função. Somos, pois, infinitamente mais responsáveis pelo que dizemos e, principalmente, escrevemos, do que quem não seja do ramo. Trata-se de tarefa destinada a poucos (há muitos “pára-quedistas” despreparados exercendo-a) que tenham, como principal virtude, cautela, conhecimento, informações e, sobretudo, a capacidade de filtrar idéias e conceitos. Poucos a têm.
Boa leitura.
O Editor
O País vive em pleno clima eleitoral, na efervescência de paixões políticas e ideológicas que antecede a grande festa da democracia, que é o momento do voto. Em poucas horas, teremos a magna responsabilidade de escolher os que irão comandar os destinos de cada Estado da Federação e do Brasil pelos próximos quatro anos. É desnecessário enfatizar os riscos de um voto dado apenas emocionalmente, sem análises prévias, erro em geral ditado pela vã esperança do surgimento de um “salvador da Pátria”, que nos livre da corrupção, da violência e da miséria, entre tantos outros males sociais do nosso tempo, e não exclusivos do Brasil, diga-se de passagem.
É preciso que nos conscientizemos, todavia, que não há milagres e muito menos milagreiros. Os postulantes aos cargos eletivos em disputa são iguaizinhos a nós. Alguns, talvez, tenham um pouco mais de preparo, notadamente no que se refere a funções administrativas. Outros tantos, todavia, certamente nos são inferiores em tudo e estão de olho, apenas, na satisfação de interesses pessoais, não importa se legítimos ou ilegítimos, quando não apenas contem com o tolo intuito de incensarem as próprias vaidades.
É tarefa das mais árduas fazer avaliações sobre quais postulantes são os mais adequados para atenderem nossas aspirações, reivindicações e esperanças, já que não existem os que sejam ideais. As campanhas eleitorais, da forma como estão postas, não esclarecem coisa alguma a respeito dos postulantes. Na verdade, confundem.
Os candidatos – salvo raríssimas exceções – não expõem idéias próprias (supondo, claro, que as tenham), mas as dos marqueteiros contratados para convencerem eleitores mal-informados, ou recalcitrantes, a darem o voto aos seus clientes, tratados como produtos de consumo, como sabonetes, dentifrícios etc., dos quais se exaltam as “qualidades” e se omitem as deficiências ou efeitos colaterais danosos, quando os casos.
Convenhamos, amigos, países que precisam de “salvadores da Pátria” não merecem ser salvos. O nosso não precisa. Fuja dos que se colocam como tal. É certo que, na verdade, os que se dizem esses “seres providenciais” tentarão salvar os próprios bolsos e os de seus apaniguados. Portanto, o eleitor deve ficar muito atento nos programas expostos pelos candidatos para a sua criteriosa análise. E mesmo estes não dizem muita coisa, por serem, via de regra, elaborados por terceiros e com fins não raro propagandísticos. Depois de eleitos, raros são postos em prática.
Ao mesmo tempo, sou contrário ao comprometimento do eleitor comum – não me refiro a membros de partido ou funcionários de empresas de marketing político responsáveis pelas campanhas, pois estes apenas estão fazendo seus serviços, mas a mim, a você, à sua mulher etc. – com este ou aquele candidato, na tentativa de fazer proselitismo.
Quando tentamos convencer alguém da exatidão de uma idéia que sequer temos absoluta convicção de ser correta, nossa responsabilidade se multiplica. Quando se trata de avaliar e, consequentemente, de avalizar pessoas ela atinge o paroxismo. Por que precisamos de cautela ao abraçar a causa política de quem quer que seja? Simples, porque podemos, com nosso testemunho e empenho, induzir nosso interlocutor ao erro, não raro de conseqüências irreparáveis. Isso é mais comum e corriqueiro do que se pensa.
Em questões políticas, não tento, nunca tentei e jamais tentarei induzir ninguém a abraçar minhas idéias (garanto que as tenho) e a partilhar minhas escolhas (que já estão todas definidas) e, também, não me deixo induzir. Sigo minha intuição. Ela é infalível? Claro que não! Por isso, não quero e não permito que ninguém me acompanhe.
O filósofo português Agostinho da Silva, no livro “Textos e ensaios filosóficos”, recomenda: “Nunca se precipite a aderir; não se deixe levar por nenhum sentimento, exceto o do amor de entendimento, de ver o mais possível claro dentro e fora de si; critique tudo o que receba e não deixe que nada se deposite no seu espírito senão pela peneira da crítica, pelo critério da coerência, pela concordância dos fatos”.
Essa recomendação é válida, óbvio, quer sejamos artistas, quer cientistas ou mesmo que não exerçamos nenhuma atividade congênere, mas sejamos simples eleitores à procura de candidatos que satisfaçam (ou se aproximem disso) nossas expectativas. Essa é a atitude sensata e justa de quem pretenda pensar e agir com sabedoria e bom-senso.
Nossa responsabilidade, é óbvio, se agiganta se tivermos, na sociedade, o papel de “formadores de opinião”. E nós, escritores e, principalmente, jornalistas, temos essa magna função. Somos, pois, infinitamente mais responsáveis pelo que dizemos e, principalmente, escrevemos, do que quem não seja do ramo. Trata-se de tarefa destinada a poucos (há muitos “pára-quedistas” despreparados exercendo-a) que tenham, como principal virtude, cautela, conhecimento, informações e, sobretudo, a capacidade de filtrar idéias e conceitos. Poucos a têm.
Boa leitura.
O Editor
Pedro, pensamos de maneira oposta quanto ao proselitismo. Não que eu ache que a minha escolha seja a melhor, e sim por que quero vê-la concretizada. Quem não expõe o próprio voto, por pudor, ou pelas causas que você descreceu, pode estar convicto da escolha, mas de que quer aquele como vencedor, não está tão certo. Passei 25 anos tentando convencer as pessoas a votar no meu candidato, desde a organização das pré-campanhas até a boca de urna. Hoje não sei em quem votar. Melhorei ou piorei?
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