

Para depois da Copa
* Por Urariano Mota
Por enquanto, não. Ela reina soberana. Nada lhe escapa. Por enquanto, mal conseguimos escrever algumas linhas, sem que nas linhas, pelas linhas, sobre as linhas, nas próprias linhas ela não esteja. Mal nos pomos diante da tela em branco, nos assaltam torturantes e cruciais dúvidas: Que time joga hoje? E Kaká, e Robinho, por que não brilham? Grafite é titular? E Luiz Fabiano, hoje desencanta? O que diz Maradona, o que fala Pelé, o que Dunga acha disso? O que indivíduos serenos, sensatos (como se nesta altura algum houvesse), o que pessoas mais distantes, equidistantes (como se nestes dias houvesse este ponto), o que analistas frios (excluídos, é claro, os analistas muito frios, porque mortos), o que os sensitivos, aqueles videntes infalíveis, que possuem nas mãos o nosso destino, vaticinam sobre o jogo de hoje?
Por enquanto, somente podemos adiar as nossas atividades mais graves, como se acompanhar um jogo decisivo, e por isso morrer de um infarto já não fosse uma atividade gravíssima. Por enquanto, fazemos de conta que estamos de férias, em férias, leves, ledos e livres, despreocupados como gringos de camisas floridas no sol dos trópicos. A esperança de vencer nos sorri. Ainda que, aqui e ali, a esperança se transforme em desgraça a sorrir de nós. Mas por enquanto não. Por enquanto a vida se transforma em dois tempos: no primeiro, assistimos à Copa. No segundo, no segundo, bom, a vida nos assiste. Com urgências e cuidados de bulas milagrosas do fenômeno das drogas, de todas as drogas, de preferência. Mas isso apenas no segundo tempo. Ainda estamos no primeiro. Pois não é mesmo bom viver a vida em dois tempos, quando todos julgávamos que só possuíamos um, e estávamos na altura do 45º. minuto final? Pois. Ganhamos mais que uma prorrogação – temos dois tempos. (O que lembra aquelas casinhas pequenas, que o engenho humano separa por cortinas em dois ambientes.)
Por enquanto, adiamos. (E só adia quem tem mesmo um segundo tempo.) O tratamento de saúde rigoroso, disciplinado, inflexível, ah, convenhamos, iniciaremos quando a Copa nos deixar. Por enquanto, bebemos todos sob recomendação médica. Em todos os jogos, antes, durante e depois. Antes para suportar a espera, durante para conviver com o sofrimento, depois porque ninguém é de ferro. O álcool dilata as artérias, nos dizemos, e não desejamos saber que ele nos dilata até a fronteira da idiotice. Vasodilatador de tudo. O que querem? Somos humanos, dizemos, e com isto deveríamos nos dizer que uma das condições do humano é ser também estúpido. Mas sobre este obstáculo saltamos e driblamos com uma agilidade Luiz Fabiano. O que querem? Estamos no gozo do primeiro tempo. Por isso e por enquanto adiamos o livro que deveremos começar, pois coisa ruim é tentar algo de sério, de mais sério (para o qual, desconfiamos, não estamos à altura). Por isso deixamos para depois os exercícios certos, duros, os exercícios sistemáticos, matemáticos, catárticos. Os exercícios que nos curam da insatisfação porque não atingimos a realização de um trabalho impossível. Ah, paciência, tenham dó. Que passe esta Copa.
Por isso nos prometemos que vamos no segundo tempo recomeçar. Melhor dizendo, recomeçar, não. Começar, queremos dizer, começar, como se nada houvesse acontecido antes. Dieta, regime, remédios, exercícios, trabalho, livro, poesia, ternura, a disponibilidade full time para o amor. Prometemos. (E prometer também é uma forma de sonhar, até mesmo o impossível.) Prometemos, para o segundo tempo. Mas, por favor, compreendam, nada pode ser feito agora.
Por enquanto, não. Tudo gira em torno do jogo que tarda a chegar. Enquanto as horas teimam em não correr, enquanto os minutos se arrastam como os pés pesados dos batedores de pênalti, por enquanto somos apenas um pontinho minúsculo na multidão, todos estamos sem respirar coletivamente, compomos juntos o maior sufoco de pulmões unidos, à espera do ar, à espera do grito que liberta: Gol! Esse porvir nos regala. Gol. God, quando é bom, faz essa felicidade sair do nosso peito. Dios, quando é mau, faz-nos ouvir essa felicidade em outra terra, em outro continente. Mas como os amantes enganados esperamos sempre que Deus não nos falte, em sua infinita misericórdia e fidelidade. Pelo menos não nesta Copa.
Por enquanto, somente podemos adiar as nossas atividades mais graves, como se acompanhar um jogo decisivo, e por isso morrer de um infarto já não fosse uma atividade gravíssima. Por enquanto, fazemos de conta que estamos de férias, em férias, leves, ledos e livres, despreocupados como gringos de camisas floridas no sol dos trópicos. A esperança de vencer nos sorri. Ainda que, aqui e ali, a esperança se transforme em desgraça a sorrir de nós. Mas por enquanto não. Por enquanto a vida se transforma em dois tempos: no primeiro, assistimos à Copa. No segundo, no segundo, bom, a vida nos assiste. Com urgências e cuidados de bulas milagrosas do fenômeno das drogas, de todas as drogas, de preferência. Mas isso apenas no segundo tempo. Ainda estamos no primeiro. Pois não é mesmo bom viver a vida em dois tempos, quando todos julgávamos que só possuíamos um, e estávamos na altura do 45º. minuto final? Pois. Ganhamos mais que uma prorrogação – temos dois tempos. (O que lembra aquelas casinhas pequenas, que o engenho humano separa por cortinas em dois ambientes.)
Por enquanto, adiamos. (E só adia quem tem mesmo um segundo tempo.) O tratamento de saúde rigoroso, disciplinado, inflexível, ah, convenhamos, iniciaremos quando a Copa nos deixar. Por enquanto, bebemos todos sob recomendação médica. Em todos os jogos, antes, durante e depois. Antes para suportar a espera, durante para conviver com o sofrimento, depois porque ninguém é de ferro. O álcool dilata as artérias, nos dizemos, e não desejamos saber que ele nos dilata até a fronteira da idiotice. Vasodilatador de tudo. O que querem? Somos humanos, dizemos, e com isto deveríamos nos dizer que uma das condições do humano é ser também estúpido. Mas sobre este obstáculo saltamos e driblamos com uma agilidade Luiz Fabiano. O que querem? Estamos no gozo do primeiro tempo. Por isso e por enquanto adiamos o livro que deveremos começar, pois coisa ruim é tentar algo de sério, de mais sério (para o qual, desconfiamos, não estamos à altura). Por isso deixamos para depois os exercícios certos, duros, os exercícios sistemáticos, matemáticos, catárticos. Os exercícios que nos curam da insatisfação porque não atingimos a realização de um trabalho impossível. Ah, paciência, tenham dó. Que passe esta Copa.
Por isso nos prometemos que vamos no segundo tempo recomeçar. Melhor dizendo, recomeçar, não. Começar, queremos dizer, começar, como se nada houvesse acontecido antes. Dieta, regime, remédios, exercícios, trabalho, livro, poesia, ternura, a disponibilidade full time para o amor. Prometemos. (E prometer também é uma forma de sonhar, até mesmo o impossível.) Prometemos, para o segundo tempo. Mas, por favor, compreendam, nada pode ser feito agora.
Por enquanto, não. Tudo gira em torno do jogo que tarda a chegar. Enquanto as horas teimam em não correr, enquanto os minutos se arrastam como os pés pesados dos batedores de pênalti, por enquanto somos apenas um pontinho minúsculo na multidão, todos estamos sem respirar coletivamente, compomos juntos o maior sufoco de pulmões unidos, à espera do ar, à espera do grito que liberta: Gol! Esse porvir nos regala. Gol. God, quando é bom, faz essa felicidade sair do nosso peito. Dios, quando é mau, faz-nos ouvir essa felicidade em outra terra, em outro continente. Mas como os amantes enganados esperamos sempre que Deus não nos falte, em sua infinita misericórdia e fidelidade. Pelo menos não nesta Copa.
• Escritor e jornalista
Sensatez exemplar,Urariano, para ver os dois lados, as duas possibilidades, antes do ocorrido. E então, estamos agora sem nada, vazios, apenas a nos chicotear a experiência da derrota, e a temerária caça às bruxas, em busca dos culpados. Os holandeses foram melhores do que nós. Aceitemos o fato. Perdemos por que não somos bons o bastante para estarmos entre os quatro melhores futebois do mundo. Não vai adiantar, mas chorar pode.
ResponderExcluir