sábado, 3 de julho de 2010


Mulher flutuante no comprido da rua

* Por Luiz Carlos Monteiro

Estavam todos completamente sem ação, todos que ali transitavam naquela hora da manhã sob um sol impiedoso de outubro. Homens e mulheres sem idade e sem rosto, mudos e perplexos ante a cena de transgressão milagrosa que se desenrolava na rua central da cidade. Ônibus, carros de aluguel e de passeio, motos e bicicletas entravam em rota de colisão com seus condutores acionando os freios para melhor ver a mulher. No mesmo passo de perturbação e curiosidade, a gente das lojas, bancas, fiteiros e botequins estancava a venda de roupas, sapatos, sonhos lotéricos, miudezas da ganga pirata, cachaça e cigarros.

Ela começou por acariciar o vestido que parecia feito da conjunção de pedaços de pele de tomate intensamente plástico e vermelho com farelos de carne de cenoura de um amarelo queimado. Contrastando com os raios ofuscantes do sol, o moreno saliente e destacado das coxas, do rosto e dos braços que iniciavam um movimento leve e sutil em direção ao secreto de auréolas e bicos, de pelos agressivos e imantados no seu absurdo brilho e negror, instigando promessas de desvelar e encontrar na caverna aventurosa e sugestiva de paisagens e recantos novos a safira preciosa e ansiada de um mundo cósmico inaugural.

Ela caminhava uns poucos passos e depois parava para contemplar o corpo que era seu pertencimento e danação narcisista, como se não houvesse mais ninguém do lado esquerdo da rua. Não andava, pois seu caminhar era um bailado abençoado por todos os deuses e entidades impossíveis e inimagináveis ou que porventura tivessem existido. Nela tudo era rubro e amarelo, as unhas e lábios flagrados em esmalte e batom, os botões redondos de osso do vestido agora lascivamente aberto, o magnífico corpo flutuante e a presença radiosa, os adereços que ela não precisava para compor sua beleza.

Era um caminhar preguiçoso que descobria quadris ousados e divididos em duas partes simétricas e absolutamente distintas, que encarnavam um complemento de loucura e prazer circulante para a órbita voyeurista no feitio assemelhado da rua. Abriam-se passagens de magia ancestral para um presente demasiado feroz e cruel, onde se entranhavam as duas vertentes oscilando entre o escuro e a luminosidade, ensaiando um mergulho definitivo e fatídico para outras veredas desconhecidas e inusitadas.

O trânsito parado, os pedestres acotovelando-se, a pulso dando o espaço necessário para melhor apreciação do espetáculo da mulher em se livrar de sua nudez parcializada e consentida, evoluindo para uma nudez maior, mais livre e sexualizada. Nela nada poderia agredir quem quer que fosse, naquele instante em que era como um turbilhão de carne que revirava o olhar mendicante dos homens e indignava a visada clínica das mulheres.

Ela era a mulher na inteireza de sua nudez, na simbolização secular do pecado original. E todos, com especial fervor os homens, eram adões que talvez não merecessem doar àquela divindade sensual e carnal os ossos da costela não mais edênica. Porque já estavam impregnados da fuligem urbana da cidade destruída pela lama e sujeira, dos dias e das noites reinventados em carência irremissível por uma imaginação paralisada, debilitada e excessivamente inchada das coisas artificiais.


* Poeta, crítico literário e ensaísta, blog www.omundocircundande.blogspot.com

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