quarta-feira, 2 de junho de 2010




Sermão da Montanha

* Por Mara Narciso

Olha filhos, vou sair pra trabalhar. Quero que me escutem, e que me atendam, senão nem vou conseguir ficar lá. A cada dia fica mais difícil deixar vocês aqui. O perigo ronda cada pedaço da nossa casa. Vocês sabem que, se eu pudesse, ia fugir daqui levando vocês e o pai de vocês comigo. Mas não tem jeito. A nossa casa é boa, grande, bem construída. Mas está plantada é aqui. Ninguém quer pagar muito por ela, e com o dinheiro que a gente conseguisse, não dava para comprar uma nem da metade do tamanho dela e das coisas que ela tem. Então é ficar aqui mesmo.

Rafael, estou menos preocupada com você agora, depois que serviu o Exército melhorou, ficou menos bobo. Antes eu ficava cismada, achava você ingênuo demais. Agora você está melhor, mais ativo, e deve saber como se comportar pra não ser carregado pelas drogas. Mas presta atenção no seu irmão. Me ajude enquanto estou fora de casa. Fico tão nervosa que não tenho dormido direito. Acordo de madrugada com batimentos, com medo. Perco o sono e fico imaginando a nossa casa sendo invadida. Mas não. Não devemos nada. Fazemos uma boa política com os vizinhos. Sempre cumprimento todo mundo. Não quero ter problemas.

Vocês sabem que a rua foi dividida. Demarcaram o território da droga bem na frente da nossa casa. Do meio da rua para lá são uns que mandam, e do lado de cá é outro grupo. Não passa um dia pra não ter tiroteio. Você sabem, a rua já foi marcada com sangue. Nesse dia, vocês lembram, quase que nem pude entrar, pois foi na hora que a polícia veio buscar o corpo da moça. Tremi tanto que pensei que ia morrer. Mas passou.

Depois, é a turma fumando crack aqui na porta. Eu não olho nem pro lado, filhos, e quero que vocês também façam de conta que não estão vendo nada, senão eles marcam a cara de vocês e depois, adeus. Qualquer coisa que disserem à polícia, eles vão falar que foi um de nós. Melhor conviver bem com eles, mas de longe.

Renato, vem cá, olha pra mim, eu fico muito preocupada com você. Nem chega perto deles meu filho. É muito perigoso. Você sabe que a droga é ilusão. O bem bom do começo te leva por buraco depois. Ninguém faz dívida com droga. É fazer e pagar com a vida. Você quase não vê gente mais velha no tráfico, pois morre antes disso. Olha, filho, passa por eles, e se não der jeito, cumprimenta, e só. Nem olha muito pra eles não. Evita conviver. Eu saio e fico de lá imaginando como vocês estão aqui, principalmente você Renato, pois com doze anos eles pensam que você não sabe de nada e podem levar você com eles. Cuidado, muito cuidado filho!

Vocês lembram muito bem da dona Maura. Ela vivia atrás do filho drogado, louca para tirar ele daquilo. Implorava ajuda pra tudo quanto é canto. Pois o danado do menino acabou levando ela e não o contrário. Agora está tão viciada quanto ele, suja e descabelada atrás de pedra. Aconteceu a mesma coisa com o outro lá. A filha estava nessa vida e ele fez tudo pra tirar ela e acabou caindo também. Então filhos, lembrem do pedido da mãe, e não façam essa loucura de experimentar droga.

O cara lá é importante, é poderoso, é comandante do tráfico daqui do bairro, mas ele está preso, meus filhos, pela droga e pelas leis deles. De que adianta ter dinheiro, celular último tipo, roupa e tênis de marca se ele não pode sair de dentro desse quadrado? Se sair ele morre. A outra facção mata ele. Que vida é essa sem liberdade? É a prisão pior que tem.

Prestem atenção e escutem a mãe de vocês. Filhos, filhos, estou saindo. Não se esqueçam do que estou dizendo. Volto à noite! Tchau!

* Médica endocrinologista em Montes Claros, acadêmica do oitavo período de Jornalismo e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”

4 comentários:

  1. Este Sermão da Montanha está mais para Sermão do Morro, onde bem-aventurado é quem consegue desviar da saraivada diária de balas. Muito bom seu texto, Doutora Mara. Abraços.

    ResponderExcluir
  2. Como mães zelosas contamos com a educação
    que demos para os nossos filho.
    Contamos com os valores que dividimos com eles.
    E na ausência do Estado em garantir a integridade
    física de nossos filhos, contamos com Deus.
    Abraços

    ResponderExcluir
  3. Marcelo a Núbia, obrigada pelos comentários. Escrevi lembrando-me de uma prima que fazia a mãe fazer discursos inúteis maiores do que esse, há 32 anos, e ainda numa mãe real e atual desesperada, que me disse falar coisa semelhante aos filhos todos os dias. Estar de mãos atadas diante de uma guerra conflagrada, só mesmo com muito sermão.

    ResponderExcluir
  4. Triste realidade das mães que trabalham e deixam os filhos à mercê...de quem??? Nunca se sabe.
    Parabéns, Mara por um texto tão sensível.
    Beijos

    ResponderExcluir