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Soler, emoção e morte
* Por Marco Albertim
Os dois chegaram a Tracunhaém num domingo de janeiro, meados do mês. Não se via na praça dos artesãos um rosto catando novidades no ano entrante, salvo meia dúzia de aposentados trocando prosa miúda, a praça estava deserta. Alguns turistas de pele brancosa visitavam ateliês e lojas; pensavam que os artesãos, todos, viviam em comunhão com musas saídas do barro escavado, soprando ângulos e curvas para cada modelo de santo. Maújo e Francis não sabiam se portar como turistas desajeitados; foram recebidos como vindos de outros países, ou de outras cidades do Estado, mesmo com a fala sem lesões.
A casa de Soler era um sobrado igual aos de Olinda, com janelas mouriscas, varanda apoiada em cantaria. As esculturas e quadros estavam no pavimento de cima; o acesso, uma escada em caracol com degraus de madeira sobre três hastes de ferro, Soler tivera o cuidado de ocultar com pinturas de inspiração telúrica. O propósito era resguardar as pernas de mulheres que subiam e desciam de saia.
Uma mulher de meia-idade, roupa florida, atendia os visitantes no pavimento de baixo; indicava a escada e administrava com zelo de hotelaria um livro de presenças sobre um balcão com gravuras de santos; ali, quem saía, tinha que apor a assinatura e a data da visita. No andar de cima, outra mulher, dir-se-ia a irmã da primeira, recebia pagamentos, dava trocos, conferia cheques.
No meio de estátuas e quadros, Francis portou-se como ser estivesse vendo pela primeira vez a obra de Soler. Mostrou a Maújo a estátua de São Francisco, em que o artista, bruxo matreiro, cheio de truques, escondia a liamba; as pombas rijas, presas nos ombros e braços da estátua, não tinham indícios de remoção recente nem cheiravam a cânhamo. O velho aposentara costumes e emoções. Seus trabalhos, muitos já conhecidos de Francis, do tempo em que ela, inábil, enlameara o rosto no amanho do barro. Pusera de lado, ele, o uso da liamba, sentiu-se incapaz de moldar, riscar o traço de artista maduro; os braços se acanharam, quadros e esculturas mostravam linhas incertas, curvas imprecisas.
Francis procurou o quarto dos fundos, onde se trancara com Soler, puxara o fumo e posara nua. A porta estava aberta. Sobre a velha bancada de trabalho, pincéis limpos ao lado de latas pequenas de tintas; no cavalete, uma tela em branco com pintas de mofo; estiletes, paletas, lâminas, espátulas, tudo lavado numa bacia de barro; costume do bruxo antes de descer para as refeições ou para dormir. No lugar onde havia a otomana, nenhum outro móvel fora posto; só o biombo de tecido com quadrículas escocesas, onde ela tirara a roupa, agora lhe parecendo estranhamente transparente. Olhou para os quatro cantos do aposento velho; virou-se para trás, viu na parede frontal à dos fundos , um lençol.
- Quem é a senhora? O que é dele?
- Eu e minha irmã somos suas sobrinhas. Administramos a exposição e as vendas. Uma enfermeira cuida dele o dia todo. Ele está lá embaixo, no quarto vizinho à cozinha. Espere na porta, do lado de fora. Eu digo que você está aqui. Se ele piscar concordando, abro a porta e você entra.
Soler recebeu Francis sem se mover; estava deitado com um ventilador ligado em sua direção, de lado, para o caso de necessidades; o pijama listrado estava babado na altura do tórax. Alimentava-se por via parenteral. Olhou-a com dois olhos inertes, rosto inteiriçado, pálido, funéreo.
- Ela quer o quadro, Soler.
Ele piscou só uma vez, e deixou cair uma lágrima do olho mais próximo do travesseiro.
Ela deu notícias da quitanda, das beatas da Sé que a esconjuraram, do secretário no afã de interditar suas estatuetas, da decisão favorável do Tribunal; não disse que agora tinha um parelho, par de teto, de cama; para quê? O velho estava mesmo no fim; morreria com a lembrança de tê-la visto nua, na otomana de veludo rutilante, com o véu branco de bordado cobrindo o seio tenro, o ventre ainda brotando.
Um odor de vegetal cozido veio da cozinha. Soler pensou na fome que sentia à hora do almoço, do jantar; a memória juntou ao cheiro o odor de terra virgem que emanara do cânhamo que puxara com Francisca. Despediu-se, ela, com um beijo mudo em sua cabeça de fios ralos; subiu com Maújo, que ficara do lado de fora, para pegar a tela. Sugeriu que não visitassem mais ateliês ou lojas. Na viagem de volta, disse:
- Ele está morrendo.
Em casa, Maújo propôs comerem uma moqueca.
- Não tenho fome.
A tela dói pendurada em frente à cama dos dois, na manhã seguinte. Toda semana ela regou zelosa, como de regra, begônias, margaridas e açucenas. No domingo, depois de enfeitar os jarros do ateliê e da quitanda, comprou o jornal ao moleque de sua estima e leu o que esperava.
Mal de Parkinson mata Soler.
Suspeitou do fluido homicida que sua visita levara; esperou a morte do amigo na resignação de seu juízo cabalístico. Quando o vira quase cadáver, não teve dúvidas de que era a derradeira vistoria. A intuição fora o aviso do orixá padrinho de artesãos, da iminente morte de um confrade da rede universal. O último suspiro, supunha, fora com saudades felizes. Soler cumprira o ofício com tolerância, morreu com a melancolia do desterro irreversível.
- Não está arrependida da viagem?
Maújo catava remorsos como se cata bicho-de-pé.
- Não, Soler só fez o que gostava. Não carregou arrependimentos. Foi feliz do seu jeito e ensinou aos mais novos. Não será mais esquecido.
Francis não pôs luto fechado nem aberto em suas roupas; pôs uma tarja preta, retangular, numa das duas portas de sua quitanda, a que se mantinha fechada. No portão da oficina, na casa da tia, também pôs tarja. Na segunda à noite, cozinhou feijão fradinho, assou inhame, dispôs em panela de barro com velas azuis; foi à beira-mar de Maria Farinha e depôs a oferenda a Ogum; não tirou a roupa para Maújo, nem acendeu a liamba (...)
* Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
* Por Marco Albertim
Os dois chegaram a Tracunhaém num domingo de janeiro, meados do mês. Não se via na praça dos artesãos um rosto catando novidades no ano entrante, salvo meia dúzia de aposentados trocando prosa miúda, a praça estava deserta. Alguns turistas de pele brancosa visitavam ateliês e lojas; pensavam que os artesãos, todos, viviam em comunhão com musas saídas do barro escavado, soprando ângulos e curvas para cada modelo de santo. Maújo e Francis não sabiam se portar como turistas desajeitados; foram recebidos como vindos de outros países, ou de outras cidades do Estado, mesmo com a fala sem lesões.
A casa de Soler era um sobrado igual aos de Olinda, com janelas mouriscas, varanda apoiada em cantaria. As esculturas e quadros estavam no pavimento de cima; o acesso, uma escada em caracol com degraus de madeira sobre três hastes de ferro, Soler tivera o cuidado de ocultar com pinturas de inspiração telúrica. O propósito era resguardar as pernas de mulheres que subiam e desciam de saia.
Uma mulher de meia-idade, roupa florida, atendia os visitantes no pavimento de baixo; indicava a escada e administrava com zelo de hotelaria um livro de presenças sobre um balcão com gravuras de santos; ali, quem saía, tinha que apor a assinatura e a data da visita. No andar de cima, outra mulher, dir-se-ia a irmã da primeira, recebia pagamentos, dava trocos, conferia cheques.
No meio de estátuas e quadros, Francis portou-se como ser estivesse vendo pela primeira vez a obra de Soler. Mostrou a Maújo a estátua de São Francisco, em que o artista, bruxo matreiro, cheio de truques, escondia a liamba; as pombas rijas, presas nos ombros e braços da estátua, não tinham indícios de remoção recente nem cheiravam a cânhamo. O velho aposentara costumes e emoções. Seus trabalhos, muitos já conhecidos de Francis, do tempo em que ela, inábil, enlameara o rosto no amanho do barro. Pusera de lado, ele, o uso da liamba, sentiu-se incapaz de moldar, riscar o traço de artista maduro; os braços se acanharam, quadros e esculturas mostravam linhas incertas, curvas imprecisas.
Francis procurou o quarto dos fundos, onde se trancara com Soler, puxara o fumo e posara nua. A porta estava aberta. Sobre a velha bancada de trabalho, pincéis limpos ao lado de latas pequenas de tintas; no cavalete, uma tela em branco com pintas de mofo; estiletes, paletas, lâminas, espátulas, tudo lavado numa bacia de barro; costume do bruxo antes de descer para as refeições ou para dormir. No lugar onde havia a otomana, nenhum outro móvel fora posto; só o biombo de tecido com quadrículas escocesas, onde ela tirara a roupa, agora lhe parecendo estranhamente transparente. Olhou para os quatro cantos do aposento velho; virou-se para trás, viu na parede frontal à dos fundos , um lençol.
- Quem é a senhora? O que é dele?
- Eu e minha irmã somos suas sobrinhas. Administramos a exposição e as vendas. Uma enfermeira cuida dele o dia todo. Ele está lá embaixo, no quarto vizinho à cozinha. Espere na porta, do lado de fora. Eu digo que você está aqui. Se ele piscar concordando, abro a porta e você entra.
Soler recebeu Francis sem se mover; estava deitado com um ventilador ligado em sua direção, de lado, para o caso de necessidades; o pijama listrado estava babado na altura do tórax. Alimentava-se por via parenteral. Olhou-a com dois olhos inertes, rosto inteiriçado, pálido, funéreo.
- Ela quer o quadro, Soler.
Ele piscou só uma vez, e deixou cair uma lágrima do olho mais próximo do travesseiro.
Ela deu notícias da quitanda, das beatas da Sé que a esconjuraram, do secretário no afã de interditar suas estatuetas, da decisão favorável do Tribunal; não disse que agora tinha um parelho, par de teto, de cama; para quê? O velho estava mesmo no fim; morreria com a lembrança de tê-la visto nua, na otomana de veludo rutilante, com o véu branco de bordado cobrindo o seio tenro, o ventre ainda brotando.
Um odor de vegetal cozido veio da cozinha. Soler pensou na fome que sentia à hora do almoço, do jantar; a memória juntou ao cheiro o odor de terra virgem que emanara do cânhamo que puxara com Francisca. Despediu-se, ela, com um beijo mudo em sua cabeça de fios ralos; subiu com Maújo, que ficara do lado de fora, para pegar a tela. Sugeriu que não visitassem mais ateliês ou lojas. Na viagem de volta, disse:
- Ele está morrendo.
Em casa, Maújo propôs comerem uma moqueca.
- Não tenho fome.
A tela dói pendurada em frente à cama dos dois, na manhã seguinte. Toda semana ela regou zelosa, como de regra, begônias, margaridas e açucenas. No domingo, depois de enfeitar os jarros do ateliê e da quitanda, comprou o jornal ao moleque de sua estima e leu o que esperava.
Mal de Parkinson mata Soler.
Suspeitou do fluido homicida que sua visita levara; esperou a morte do amigo na resignação de seu juízo cabalístico. Quando o vira quase cadáver, não teve dúvidas de que era a derradeira vistoria. A intuição fora o aviso do orixá padrinho de artesãos, da iminente morte de um confrade da rede universal. O último suspiro, supunha, fora com saudades felizes. Soler cumprira o ofício com tolerância, morreu com a melancolia do desterro irreversível.
- Não está arrependida da viagem?
Maújo catava remorsos como se cata bicho-de-pé.
- Não, Soler só fez o que gostava. Não carregou arrependimentos. Foi feliz do seu jeito e ensinou aos mais novos. Não será mais esquecido.
Francis não pôs luto fechado nem aberto em suas roupas; pôs uma tarja preta, retangular, numa das duas portas de sua quitanda, a que se mantinha fechada. No portão da oficina, na casa da tia, também pôs tarja. Na segunda à noite, cozinhou feijão fradinho, assou inhame, dispôs em panela de barro com velas azuis; foi à beira-mar de Maria Farinha e depôs a oferenda a Ogum; não tirou a roupa para Maújo, nem acendeu a liamba (...)
* Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
Soler viveu intensamente.
ResponderExcluirNão deixou nada para trás.
Estava pronto para ir embora.
Abraços
Quantos poderão dizer que não carregam arrependimentos? Soler pôde. Enquanto há tempo, vamos valorizar o que nos der na telha.
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