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Abram passagem para Carmela
* Por Eduardo Murta
Havia quem pensasse se tratar de uma lenda a mais as histórias de uma tal Carmela, rainha soberana do convencimento. Até ouvirem de sua própria boca, aos 10 anos, nos bancos de escola: ela ainda não conhecia o mar para poupá-lo de se afogar em saudade quando partisse. Ah, bom... Incensava a empáfia na recusa em pedir bênção às tias, mesmo as de bengala, porque julgava que deveriam todas caminhar em sua direção. Daí foi um passo para acreditar que a lua mudava suas formas tão somente para encantá-la. E que nem pai, nem mãe, ninguém, deveria convencer-lhe do contrário em nenhum assunto. Um senão soava como ofensa grave. E ai dos que caíssem em seu caderninho de ingratidões. Fizera picadinho do vestido da irmã mais velha só à menção de que engordara. E libertara um a um os canários do padrinho, ao risco de ter que dividir o colo com a caçula, agora também apadrinhada.
Se invernou em teatro de febres, mendigando atenção exclusiva e exigindo provas singulares de que era a mais querida. Buquês matinais de gerânios, declarações em série a elegendo como única e insubstituível. Mais: a leitura de contos da carochinha em que fosse escalada no papel de princesa. E como punha crença naquilo. A empregada da fazenda vivendo como mucama, lhe adoçando o leite, afastando mosquitos, arqueando a sombrinha, a que o sol não a perturbasse.
E à iniciativa da meninada do lugar em lhe dividir amizade, instituía torneios de cuspe a distância, disputas em queda de braço, disparos de estilingue e as donas das bonecas mais empetecadas para as vagas limitadas. E estabelecia, quanto aos meninos, que rejeitaria secamente se neles enxergasse feiura. Contam que exagerou, ao ditar duelo a dois pretendentes. Com direito a contagem regressiva e uma só bala. Morreriam ambos.
Foi ali que a gente do lugarejo achou que era hora para um basta. Os pais concordando e, Carmela aos 11 anos, talvez clausura em colégio de freiras fosse o ideal. Ou, quem sabe, casamento de encomenda. Difícil, julgava o fazendeirão, seria elencar alguém bom o bastante, a que fosse digno de empenhar alianças.
Um mês de angústia, a menina caramujeando tristeza, eis que uma saída salta assim, ao acaso. Morador novo. Se apresentara como comerciante e desfilava em limusine da padaria ao açougue, dali ao mercadinho, deste à igreja. E quem trazia a tiracolo? Filhinho empombado. Adolescente em roupas de tirar onda, e um histórico peculiar: o de bravura. Se encaixava no perfil. Aos 15 anos, colhera bigodes de onça para transformá-los em espanador na tão falada mansão de praia dos pais.
E alardeava que matara, ele mesmo, coleção de cascavéis só para converter os chocalhos em troféus de coragem. Um colar completava o pedigree de valentão: unhas de lobo e dentes de urso que contava ter trazido de caçadas nos bosques da América. Par ideal para Carmela. Ela concordando, porque o via um degrau acima dos mortais e, melhor, com berço também banhado a ouro.
Casamento marcado, veio partilha lavrada em cartório. O noivo ficando com o equivalente a 6 mil cabeças de gado – as notas abarrotando o porta-malas – e ofertando terreno vasto em faixa litorânea. O casal partiu, e a menina farejou fragmentos de tragédia logo no começo da viagem, com a pane no ar-condicionado do carrão. Pior ainda quando, na cidade à frente, deixaram o veículo numa locadora e embarcaram num Opalão que rangia a sinfonias. Tarde demais.
Mirou o sogro. Ele sorriu. Credo! Notou as dentaduras! E o marido, maldito fosse, ao calor infernal, já se desfizera dos apliques que tornavam seu cabelo liso e atraente, assumindo a forma ressecada que lhe era original. Daí não se espantou com a tapera no meio do nada em que a alojaram. Traída. Ou com os bodes dos quais deveria tratar ou a roupa para lavar no tanque. Humilhada. Só a imagem do mar, ao longe, a inspirava. Sonhando um dia, agora humildemente, ao menos com seu perdão.
* Jornalista, autor de "Tantas Histórias. Pessoas Tantas", livro lançado em maio de 2006, que reúne 50 crônicas selecionadas publicadas na imprensa. É secretário de Redação do jornal Hoje em Dia, diário de Belo Horizonte. Já teve passagens também pelos jornais Diário de Minas e Estado de Minas, além de Folha de S.Paulo e revista Veja. É um dos colunistas do Hoje em Dia (www.hojeemdia.com.br), onde publica às quartas.
* Por Eduardo Murta
Havia quem pensasse se tratar de uma lenda a mais as histórias de uma tal Carmela, rainha soberana do convencimento. Até ouvirem de sua própria boca, aos 10 anos, nos bancos de escola: ela ainda não conhecia o mar para poupá-lo de se afogar em saudade quando partisse. Ah, bom... Incensava a empáfia na recusa em pedir bênção às tias, mesmo as de bengala, porque julgava que deveriam todas caminhar em sua direção. Daí foi um passo para acreditar que a lua mudava suas formas tão somente para encantá-la. E que nem pai, nem mãe, ninguém, deveria convencer-lhe do contrário em nenhum assunto. Um senão soava como ofensa grave. E ai dos que caíssem em seu caderninho de ingratidões. Fizera picadinho do vestido da irmã mais velha só à menção de que engordara. E libertara um a um os canários do padrinho, ao risco de ter que dividir o colo com a caçula, agora também apadrinhada.
Se invernou em teatro de febres, mendigando atenção exclusiva e exigindo provas singulares de que era a mais querida. Buquês matinais de gerânios, declarações em série a elegendo como única e insubstituível. Mais: a leitura de contos da carochinha em que fosse escalada no papel de princesa. E como punha crença naquilo. A empregada da fazenda vivendo como mucama, lhe adoçando o leite, afastando mosquitos, arqueando a sombrinha, a que o sol não a perturbasse.
E à iniciativa da meninada do lugar em lhe dividir amizade, instituía torneios de cuspe a distância, disputas em queda de braço, disparos de estilingue e as donas das bonecas mais empetecadas para as vagas limitadas. E estabelecia, quanto aos meninos, que rejeitaria secamente se neles enxergasse feiura. Contam que exagerou, ao ditar duelo a dois pretendentes. Com direito a contagem regressiva e uma só bala. Morreriam ambos.
Foi ali que a gente do lugarejo achou que era hora para um basta. Os pais concordando e, Carmela aos 11 anos, talvez clausura em colégio de freiras fosse o ideal. Ou, quem sabe, casamento de encomenda. Difícil, julgava o fazendeirão, seria elencar alguém bom o bastante, a que fosse digno de empenhar alianças.
Um mês de angústia, a menina caramujeando tristeza, eis que uma saída salta assim, ao acaso. Morador novo. Se apresentara como comerciante e desfilava em limusine da padaria ao açougue, dali ao mercadinho, deste à igreja. E quem trazia a tiracolo? Filhinho empombado. Adolescente em roupas de tirar onda, e um histórico peculiar: o de bravura. Se encaixava no perfil. Aos 15 anos, colhera bigodes de onça para transformá-los em espanador na tão falada mansão de praia dos pais.
E alardeava que matara, ele mesmo, coleção de cascavéis só para converter os chocalhos em troféus de coragem. Um colar completava o pedigree de valentão: unhas de lobo e dentes de urso que contava ter trazido de caçadas nos bosques da América. Par ideal para Carmela. Ela concordando, porque o via um degrau acima dos mortais e, melhor, com berço também banhado a ouro.
Casamento marcado, veio partilha lavrada em cartório. O noivo ficando com o equivalente a 6 mil cabeças de gado – as notas abarrotando o porta-malas – e ofertando terreno vasto em faixa litorânea. O casal partiu, e a menina farejou fragmentos de tragédia logo no começo da viagem, com a pane no ar-condicionado do carrão. Pior ainda quando, na cidade à frente, deixaram o veículo numa locadora e embarcaram num Opalão que rangia a sinfonias. Tarde demais.
Mirou o sogro. Ele sorriu. Credo! Notou as dentaduras! E o marido, maldito fosse, ao calor infernal, já se desfizera dos apliques que tornavam seu cabelo liso e atraente, assumindo a forma ressecada que lhe era original. Daí não se espantou com a tapera no meio do nada em que a alojaram. Traída. Ou com os bodes dos quais deveria tratar ou a roupa para lavar no tanque. Humilhada. Só a imagem do mar, ao longe, a inspirava. Sonhando um dia, agora humildemente, ao menos com seu perdão.
* Jornalista, autor de "Tantas Histórias. Pessoas Tantas", livro lançado em maio de 2006, que reúne 50 crônicas selecionadas publicadas na imprensa. É secretário de Redação do jornal Hoje em Dia, diário de Belo Horizonte. Já teve passagens também pelos jornais Diário de Minas e Estado de Minas, além de Folha de S.Paulo e revista Veja. É um dos colunistas do Hoje em Dia (www.hojeemdia.com.br), onde publica às quartas.
Ela era tão senhora de si, tão egocêntrica
ResponderExcluirao apenas tentar se enxergar nos olhos dos
outros, que ouso dizer que não lamento o
seu final.
Ótimo texto Eduardo.
Beijos
Crueldade. Não era preciso tanto. Pobre menina. Com os seus maus bofes e comportamento genioso, ali não ficará. Muito em breve vai ao mar, que depois da partida, dela sentirá saudade. Adorei a construção da personagem. Perfeito!
ResponderExcluirGenial,Murta
ResponderExcluirOnde você foi buscar tanta imaginação? Adorei!Conheço gente que chega bem perto dessa Carmela...