terça-feira, 2 de junho de 2009


Gereraú

* Por Eduardo Pragmácio Filho

I

Doeu-me
quando arrancaram
os farpados e os arames.

Doeu-me
quando impuseram
um muro de medo e de pedras.


II

Das carnaúbas ficaram
as espadas de seus talos
e a glória imaginada
de batalhas vencidas.

As carnaúbas guiavam,
na aridez do solo,
a fertilidade involuntária
das tardes de sábado.

As carnaúbas
não sucumbem às parabólicas.


III

Uns carrapichos
agarravam-se nas pernas,
experimentando a urbanidade.

Outros carrapichos
defendiam-se,
evitando a invasão,
inevitável,
da modernidade.


IV

A casa
já não é mais velha
nem nova.

A casa
se equilibra sobre
os alicerces de tijolos
e contrastes.

A casa
guarda um mofo
requintado
e a escrita poderosa dos tempos
(e agora um número na rua).


V

Nas estradas do Gereraú,
os rastros de uma época,
que não se apagam assim com esse asfalto.

* Poeta de Fortaleza/CE


2 comentários:

  1. Lindo, lindo, lindo. Poema de amor à natureza e de resistência. Parabéns, Eduardo!

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  2. A modernidade da urbanização pode ser assustadora, e embora traga conforto, num primeiro momento traz mesmo é o medo. Bonito desabafo dessa invasão, da rua e da casa, nem sempre suportável.

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